Blog do José Paulo Kupfer http://josepaulokupfer.blogosfera.uol.com.br Análises e contextualizações para entender o dia a dia da economia e das políticas econômicas, bem como seus impactos sobre o cotidiano das pessoas, sempre com um olhar independente, social e crítico. Thu, 22 Aug 2019 16:19:21 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Sabe o que parece simples e eficiente, mas é um equívoco? A CPMF. Entenda. http://josepaulokupfer.blogosfera.uol.com.br/2019/08/22/sabe-o-que-parece-simples-e-eficiente-mas-e-um-equivoco-a-cpmf-entenda/ http://josepaulokupfer.blogosfera.uol.com.br/2019/08/22/sabe-o-que-parece-simples-e-eficiente-mas-e-um-equivoco-a-cpmf-entenda/#respond Thu, 22 Aug 2019 15:50:17 +0000 http://josepaulokupfer.blogosfera.uol.com.br/?p=221 O ministro Paulo Guedes voltou a colocar um imposto sobre transações financeiras, nos moldes da velha CPMF, no tabuleiro da reforma tributária em discussão no Congresso. Guedes vinculou a adoção de uma contribuição sobre pagamentos à redução de encargos que pesam sobre a folha de pagamentos de salários das empresas.

Impostos como o pretendido pela equipe econômica do governo se encaixam com perfeição naquela ideia bem conhecida segundo a qual todo problema complexo tem uma solução simples e totalmente equivocada. Por não ser declarado, com cobrança praticamente automática e aparentemente “indolor” para o contribuinte, esse tipo de tributo exerce uma atração quase irresistível sobre governos, sobretudo de países mais pobres e com dificuldades fiscais.

Mas a vantagem no lado da arrecadação perde de longe para os problemas econômicos e sociais que o tributo acaba criando. Tanto que nenhuma economia relevante no mundo adota um tributo sobre transações e pagamentos.

Atualmente, apenas uma dezena de países, a maioria latino-americanos, entre os quais Argentina, México, Venezuela e Bolívia, mantém algum formato dessa contribuição. Fora da região, Hungria, Sri Lanka e Paquistão integram a lista. Uma curiosidade: os Estados Unidos tiveram um “imposto sobre cheques”, por dois anos e meio, entre 1932 e 1934, em plena Grande Depressão, com resultados desastrosos sobre a economia. Nunca mais.

A versão 2019 do imposto, segundo o jornal “O Estado de S.Paulo”, se chamaria Contribuição Social sobre Transações e Pagamentos (CSTP) e teria alíquota de 0,22%, abaixo da faixa de 0,38% da antiga CPMF. O tributo não incidiria sobre aplicações financeiras, tais como ações, renda fixa e poupança.

Criada em 1997, no governo FHC, e eliminada pelo Congresso dez anos depois, em 2007, no segundo governo Lula, um imposto sobre transações foi sempre um sonho secreto ou não de todos os governos posteriores. Dilma e Temer estimularam balões de ensaio sobre o tema. Guedes, ainda na campanha eleitoral e já como guru econômico de Jair Bolsonaro, seguiu pelo mesmo caminho.

Bolsonaro votou pelo fim da CPMF em 2007 e recentemente reagiu com um peremptório “não” quando indagado sobre a volta do tributo. Mas, como é de seu estilo, depois do relançamento público da ideia por Guedes, ensaiou um recuo. Disse que vai conversar com o ministro e adiantou que, se vier junto com redução forte de burocracias e taxas, pode aceitar recriar o imposto.

Existe, de fato, uma diferença importante entre a velha CPMF e a nova CSTP. A antiga foi um tributo a mais a pesar na já elevada carga tributária brasileira. A nova vem com o objetivo de substituir taxas existentes. Na versão de Guedes, compensaria a abolição da contribuição previdenciária patronal. Na proposta de empresários apoiadores de Bolsonaro, reunidos no Instituto 200, no entanto, já começaria substituindo todos os impostos federais.

Nem com a ressalva do tributo compensatório, contudo, a nova contribuição escapa de críticas. Ainda que não aumente a carga tributária, a CSTP ou semelhante introduziria ainda mais distorções num sistema tributário absolutamente disfuncional. Nada do que se exige um sistema tributário digno do nome — simplicidade, neutralidade, transparência, equidade, incentivo à produtividade e à competitividade — é encontrado no sistema brasileiro.

Estudos à luz das experiências conhecidas indicam que o ambiente de produção de ineficiências seria agravado com um imposto sobre transações financeiras. A lista das distorções, de acordo com uma grande diversidade de especialistas, é ampla.

Começa com o fato de que esse tipo de tributo, incidindo nas pontas das operações, é cumulativo, promovendo tributação em cascata. Um dos efeitos mais danosos dos impostos cumulativos é que a eles faltam transparência e flexibilidade, o que resulta em ônus tributário sobre atividades que deveriam ser estimuladas e, portanto, aliviadas de taxas. Os casos mais graves dizem respeito à oneração dos investimentos produtivos e das exportações.

Além disso, tributos da família das CPMFs, quaisquer que sejam os nomes adotados, estimulam a desintermediação financeira e a preferência ineficiente e insegura por dinheiro vivo. Estudos em países que adotam ou adotaram impostos sobre transações detectaram que cheques, instrumento de pagamento em desuso, ganham espaço, sendo passados de mão em mão, em longos circuitos de transferências, antes de serem depositados.

Num mundo produtivo em que as cadeias mais eficientes são longas e fragmentadas, contribuições sobre pagamentos incentivam a verticalização da produção. Sem falar que, embora possa parecer o contrário, a taxação é maior sobre os mais pobres, mesmo que estes não tenham conta em banco.

Trabalhos com dados de 2007, quando a CPMF, com alíquota de 0,38%, foi extinta, encontraram que a carga tributária específica do tributo sobre rendas de dois salários mínimos elevava-se a 2,5%. Já a taxação sobre rendas acima de 30 salários mínimos limitava-se a 1%.

Para compensar as contribuições sociais patronais, a alíquota da nova CSTP teria de ser muito mais alta do que a taxa de 0,22% calculada pelo ministro Guedes. Simulações do economista José Roberto Afonso, referência brasileira em questões tributárias, e coautores, mostram que essa alíquota teria de se elevar a 2,8% (1,4% nas operações de débito e 1,4%, nas de crédito). Alíquotas mais altas potencializam as distorções.

São pelo menos duas as preocupações derivadas dessa constatação. O primeiro é que setores menos intensivos em mão de obra seriam mais prejudicados. A agropecuária e a indústria, que já é a atividade mais taxada, serão as mais oneradas com a substituição da base de arrecadação. Bancos, comércio e outros serviços seriam mais aliviados.

A segunda preocupação diz respeito ao tamanho da alíquota em relação ao ambiente econômico. Uma coisa é impor uma taxação de 0,38%, como na falecida CPMF, quando, como na média de 2000 a 2007, a taxa de juros era de 17% ao ano, a inflação alcançava 7% e a economia crescia 3,6% anuais. Outra é aplicar um imposto sobre transações, mesmo que com alíquota um pouco inferior, com juros a 6% e cadente, inflação a menos de 3,5% e crescimento abaixo de 1%.

Além de tudo isso, os tributos sobre transações convivem com os vírus de sua própria degradação: com o passar do tempo, a base de incidência de tributação vai sendo corroída, exigindo aumentos frequentes de alíquota para manter o mesmo nível de arrecadação.

É simples a razão explicativa do fenômeno. Como provam estudos brasileiros e internacionais, com o passar do tempo, esforços para driblar a taxação vão se tornando crescentemente mais bem sucedidos.

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Muito cuidado com o novo sistema de financiamento da casa própria http://josepaulokupfer.blogosfera.uol.com.br/2019/08/20/muito-cuidado-com-o-novo-sistema-de-financiamento-da-casa-propria/ http://josepaulokupfer.blogosfera.uol.com.br/2019/08/20/muito-cuidado-com-o-novo-sistema-de-financiamento-da-casa-propria/#respond Tue, 20 Aug 2019 19:53:44 +0000 http://josepaulokupfer.blogosfera.uol.com.br/?p=207 A “revolução” prometida pelo presidente Jair Bolsonaro para o mercado imobiliário, com a liberação de linhas de financiamento corrigidas pela inflação, passa longe disso. A novidade, lançada nesta terça-feira (20) pela Caixa, pode ser vista como um triângulo em que há um lado bom, um lado incerto e um lado perigoso.

Esse é um assunto que exige o máximo cuidado de quem estiver interessado. Pelos valores envolvidos e pela duração do contrato do financiamento da casa própria, deve-se ficar alerta para as possíveis pegadinhas embutidas no novo sistema. Especialistas do mercado imobiliário estão reticentes em relação às vantagens do financiamento atrelado à inflação.

Do lado bom do triângulo, vem a possibilidade de ampliação do leque de opções de financiamento à disposição dos interessados em comprar imóveis. No lado ruim está a instabilidade da inflação que, como fator de correção das prestações, traz incertezas e riscos de inadimplência, sobretudo em empréstimos de prazo mais longo, típicos do mercado imobiliário.

Tem ainda um terceiro lado perigoso. É o que pode produzir influências negativas sobre a economia como um todo, com a criação de mais um canal de indexação de contratos à inflação. Foi a generalização da indexação, então conhecida como correção monetária, que levou à hiperinflação dos anos 80 até meados dos anos 90 do século passado.

Nunca é demais ser prudente e avaliar com o máximo cuidado as opções de financiamento imobiliário. Quando a inflação é o fator de correção dos saldos e das prestações contratuais, esses cuidados devem ser redobrados. Se a inflação está bem comportada hoje, não há garantia que continuará assim indefinidamente.

Acompanhe as explicações básicas para entender o que está em jogo no novo sistema:

Objetivo é ampliar a oferta de financiamentos

Ao regular financiamentos atrelados à inflação, com base nas variações do IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), o governo abre a possibilidade de instituições financeiras ampliarem as fontes de financiamento imobiliário. A possível vantagem da maior oferta de financiamento, contudo, traz consigo a possível desvantagem de um aumento da demanda por imóveis e, em consequência, do encarecimento dos seus valores.

Na prática, são eliminadas restrições a financiamentos de imóveis com valor até R$ 1,5 milhão, regidos até agora por regras estritas do SFH (Sistema Financeiro da Habitação) e atendidos pelo SFI (Sistema de Financiamento Imobiliário), que opera financiamentos em faixas mais altas do mercado. Recentemente, a Caixa igualou os juros do SFI aos do SFH, mantendo cada sistema com seus indexadores. Também fintechs, que não captam depósitos de poupança, por exemplo, já atuam nessa faixa de mercado destinada a um público de renda mais alta.

“Nova poupança”, investimento para ser mais competitivo

No SFH, os recursos para financiamento vêm de depósitos de poupança, o que atrela a correção do saldo devedor (e da prestação mensal) à TR (Taxa Referencial). Em grande medida, só grandes bancos, com sistema de captação de depósitos de poupança capilarizado em suas agências, conseguem oferecer financiamentos nessa modalidade.

A novidade introduz um novo tipo de aplicação financeira, uma “nova poupança”, que renderá IPCA mais uma taxa de juros. A “velha poupança” continuará pagando TR mais 70% da taxa básica de juros (taxa Selic), quando esta estiver abaixo de 8,5%. Caso a Selic ultrapasse ele limite, os juros pagos são de 0,5% ao mês fixos.

A substituição da TR pelo IPCA como indexador permitiria a ampliação da oferta de financiamentos imobiliários porque a captação de recursos para a formação de fundos para os financiamentos passa a ser livre.  A partir da abertura de financiamentos corrigidos pela inflação, o SFH se junta ao que já é possível no SFI (Sistema de Financiamento Imobiliário), destinado ao financiamento de imóveis acima de R$ 1,5 milhão.

Veja os alertas básicos em relação à nova modalidade de financiamento imobiliário que passará a ser oferecida.

1) Será que o custo do financiamento vai cair mesmo?

Os financiamentos atuais cobram TR mais uma taxa que, na média, está perto de 8%, mas a TR está zerada. O governo acena agora com financiamentos ao custo de 2,95% a 4,95% mais a correção pelo IPCA. Como o IPCA, no acumulado em 12 meses, está em torno de 3,22%, a taxa nominal de juros desses financiamentos, neste momento, ficaria entre 6,17% e 8,17%. Menor, portanto, na ponta mais baixa, do que o que tem sido cobrado nos financiamentos corrigidos pela TR.

Especialistas em mercado imobiliário, porém, têm dúvidas se será possível oferecer financiamentos a esta taxa mais baixa. A dúvida vem do seguinte: se o Tesouro Nacional paga IPCA mais 3% em seus títulos atrelados à inflação, por que os bancos prefeririam apostar em financiamentos de longo prazo ao público, correndo mais riscos para o mesmo retorno?

Só o dia a dia confirmará ou não esse ponto. Mas, em princípio, das duas, uma, se não as duas: ou bem os custos dos novos financiamentos não serão tão menores ou bem a oferta deles não será tão mais ampla.

2) Cuidado com o sobe e desce das prestações

Qualquer que seja o sistema de amortização adotado, as prestações terão variação mensal, com correção pelo IPCA. Em relação à TR, as variações do IPCA são muito maiores ao longo do tempo. Sendo o IPCA mais instável do que a TR, também em relação ao tipo de financiamento anterior, as prestações, no novo sistema, tenderão a flutuar mais.

Isso se for considerado que a inflação não passará por choques ou flutuações mais largas ao longo do período da maioria dos financiamentos, de 20 ou 30 anos — o que é improvável. Nos 20 anos do sistema de metas de inflação, a variação do IPCA ficou, na maior parte do tempo, próxima ao teto da meta.

Só ficou abaixo do centro da meta em quatro anos (2006, 2009, 2017 e 2018). Nos dois últimos anos, o IPCA foi arrastado para baixo por uma economia muito enfraquecida, com alto desemprego, como deve se repetir em 2019. Mas, em compensação, em duas ocasiões (2002 e 2015), reagindo a crises políticas e econômicas, o IPCA voou para acima de 10%.

3) Atenção para o risco de inadimplência

A instabilidade natural do IPCA será embutida nas prestações dos novos financiamentos. Por isso, deve-se levar em consideração que, em determinados períodos, as prestações possam superar o limite prudente de 30% da renda mensal.

Uma preocupação adicional deriva da eventual ocorrência de choques inflacionários (ou de altas sucessivas dos índices de inflação). Além do aumento das dificuldades em quitar prestações, a consequente alta das taxas básicas de juros, para conter a inflação, esfria a economia e eleva o risco da perda ou redução de renda do mutuário, por desemprego ou troca de ocupação por outra de menor remuneração.

Vem à lembrança o fantasma do descasamento entre correção do valor da prestação e da renda do mutuário, que faz parte da história do SFH. Entre seu lançamento, em 1964, e mudanças expressivas em suas regras, já nos anos 90 do século passado, as prestações dos financiamentos do SFH eram mensalmente atualizadas pela correção monetária, calculada com base na inflação de períodos anteriores. Com a escalada inflacionária da época, ficou inviável manter o sistema.

Assim, as prestações passaram a ser corrigidas pelos reajustes salariais enquanto o saldo devedor continuava sendo atualizado pela correção monetária. O crescente saldo remanescente desse descasamento de correções passou a ser absorvido pelo FCVS (Fundo de Compensação das Variações Salariais) e bancado pelo Tesouro, sem qualquer previsão orçamentária. O FCVS ainda vaga como um zumbi, assombrando bancos e governos. Depois de tanto tempo “inativo”, ele carrega um preocupante esqueleto, expresso por uma dívida atualizada de R$ 300 bilhões.

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Bolsonaro tira imposto de games, mas preço baixar é que são elas http://josepaulokupfer.blogosfera.uol.com.br/2019/08/19/bolsonaro-tira-imposto-de-games-mas-preco-baixar-e-que-sao-elas/ http://josepaulokupfer.blogosfera.uol.com.br/2019/08/19/bolsonaro-tira-imposto-de-games-mas-preco-baixar-e-que-sao-elas/#respond Mon, 19 Aug 2019 11:59:53 +0000 http://josepaulokupfer.blogosfera.uol.com.br/?p=200 O presidente Jair Bolsonaro comemorou, na sexta-feira, a redução do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) dos jogos eletrônicos que ele mesmo determinou pelo decreto 9.971. Em sua conta no Twitter, Bolsonaro lembrou que reduziu a incidência do tributo sobre games de 20% a 50% para 16% a 40%, avaliando que a arrecadação de impostos não será alterada, “tendo em vista o aumento da demanda”. O problema é que não há nenhuma garantia de que, com a redução do IPI, a demanda por games vai aumentar. Isso dependeria de um incerto recuo nos preços cobrados no mercado.

Caso a demanda aumente, o mais provável é que os fabricantes e comerciantes aproveitem a redução do tributo para ampliar suas margens operacionais, mantendo ou até mesmo aumentando os preços. Quando a demanda está fraca, aí sim a redução de tributos tende a ser repassada ao consumidor, resultando em  reduções nos preços.

As incertezas quanto ao efeito positivo da redução de impostos nos preços se deve ao fato de que, no Brasil, os tributos, no Brasil, são cobrados “por dentro”. Ou seja, impostos, taxas e contribuições já estão embutidos e escondidos nos preços finais pagos pelos consumidores. Essa prática nada transparente está tão arraigada na cultura de consumo brasileira que a maior parte dos compradores nem se preocupa em verificar quanto os tributos oneram o preço final. 

Nem mesmo a lei que tornou obrigatória a descrição separada dos tributos nos cupons e notas fiscais mudou a situação. A lei não pegou completamente e não é sempre que a discriminação da parte dos tributos nos preços aparece nos documentos fiscais. Quando a nota ou o cupom fiscal exibe a relação de impostos e seu peso no preço, quase ninguém dá bola.

Cortar tributos para estimular vendas e esquentar a economia é política antiga usada por governos de todos os quadrantes e ideologias. É, por exemplo, o que o presidente Donald Trump tem feito, nos Estados Unidos. Às vezes, dá certo, às vezes, não. Nos últimos anos, a manobra foi usada no Brasil pelos governos de Dilma Rousseff e Michel Temer. Deu muito errado.

Entre 2011 e 2014, a o governo da então presidente Dilma Rousseff determinou isenções de IPI para diversos setores da economia. A renúncia fiscal chegou a robustos R$ 32 bilhões, beneficiando em especial os segmentos automotivos e de eletrodomésticos. Funcionou por um período curto e depois foi um desastre.

Com problemas de demanda, alguns segmentos beneficiados repassaram os cortes de impostos, o que estimulou uma antecipação de compras. Passado um tempo, os estoques começaram a se acumular, sem que o saldo final das isenções resultassem em expansão da economia, das vendas e da arrecadação tributária.

No caso da cesta básica, beneficiada com reduções de tributos em março de 2013, o efeito foi totalmente negativo. Os custos de produção estavam em alta e o corte de tributos foi insuficiente para baixar os preços. As isenções tributárias serviram apenas para aliviar a situação de produtores e comerciantes.

Apesar dos maus resultados obtidos por Dilma, Temer não só seguiu na mesma toada como ampliou os incentivos. Só em 2017, em crise fiscal aguda, o governo deixou de arrecadar quase R$ 355 bilhões, correspondentes a isenções de tributos. A medida passou longe de  acelerar a atividade econômica e compensar, com aumento de arrecadação, as perdas de receita.

Resumindo a história, são tantos os fatores e as situações de momento com influência na formação de preços que não é possível assegurar o efeito desejado de reduzi-los e aumentar a procura dos produtos ou dos serviços beneficiados, isoladamente, com cortes de tributos.

No caso específico dos jogos eletrônicos, a situação do mercado não é exatamente propícia a reduções de preços/aumento de demanda pela via do corte de impostos. Primeiro, porque o mercado consumidor já tem porte e está em expansão.

O Brasil ocupa a terceira posição no ranking mundial do número de jogadores, com mais 60 milhões de jogadores, e esse número está em contínua expansão. Quanto maior a pressão de compra, menor o estímulo para que vendedores, mesmo com isenções de impostos, reduzam preços.

Depois, porque, no lado da oferta, o mercado ainda enfrenta limitações. No ano passado, o faturamento total do negócio de games alcançou US$ 1,5 bilhão, o que colocou o país na liderança do mercado latino-americano e no 13º lugar na lista dos maiores do mundo.

Esse resultado não representa nem 0,5% do faturamento do setor no líder mundial, os Estados Unidos, mas indica a existência de espaço para rápido crescimento. Censo da indústria de jogos digitais localizou, em 2018, 375 desenvolvedores, número 164% superior ao encontrado em 2014.

Além da pressão natural sobre os preços num mercado com alta demanda e oferta restrita, os produtos oferecidos são em sua grande maioria importados — apenas dois tipos de consoles básicos são montados e, ainda assim, com partes vindas de fora, no Brasil. Isso significa que as oscilações nas cotações do dólar têm peso relevante na formação dos preços, dificultando repasses de isenções de impostos.

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Aumento de desempregados “enferrujados” dificulta redução do desemprego http://josepaulokupfer.blogosfera.uol.com.br/2019/08/15/aumento-de-desempregados-enferrujados-dificulta-reducao-do-desemprego/ http://josepaulokupfer.blogosfera.uol.com.br/2019/08/15/aumento-de-desempregados-enferrujados-dificulta-reducao-do-desemprego/#respond Thu, 15 Aug 2019 18:19:03 +0000 http://josepaulokupfer.blogosfera.uol.com.br/?p=180 Aumentou, no segundo trimestre deste ano, o número de desempregados que procuram ocupação há mais de dois anos sem conseguir colocação. A informação divulgada na PNAD Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua), em sua edição trimestral, nesta quinta-feira (15), é das mais preocupantes entre as muitas preocupações com origem na complicada situação do mercado de trabalho.

Trabalhadores desempregados há mais de dois anos sem conseguir colocação somam 3,35 milhões. São quase mais 200 mil pessoas do que no segundo trimestre do ano passado. Esse contingente corresponde a pouco mais de um quarto do total de desocupados. Ou seja, um em cada quatro trabalhadores está sem trabalho há mais de dois anos.

Desempregados há mais de um ano chegam, neste segundo trimestre de 2019, a um total de 5,1 milhões de pessoas. Cerca de 40% dos desempregados procuravam colocação há mais de um ano, tempo de “espera” considerado pela OIT (Organização Internacional do Trabalho) como de “longa duração”.

O exército de desempregados há mais de dois anos vem aumentando ano a ano a partir de 2015, quando havia 1,4 milhão de pessoas nessa difícil condição, expressando um acréscimo de 20% sobre 2014. De lá para cá, o grupo cresceu 130% — está uma vez e um terço maior.

Ficar desempregado involuntariamente por mais de dois anos tem consequências graves para o trabalhador e para o mercado de trabalho. É como se a mão de obra enferrujasse e não conseguisse se adaptar às rotinas de trabalho mais atualizadas.

A dificuldade de recolocação para trabalhadores “enferrujados” resulta, do ponto de vista da economia, em barreira adicional para reduzir o desemprego geral. Isso porque essas pessoas terão muito mais dificuldade em encontrar um posição de trabalho e permanecerão mais tempo nas estatísticas de desemprego.

Prova disso é que tem havido recolocação mais rápida no grupo de desempregados entre um mês e um ano. Mas vem aumentando a proporção de pessoas que procuram ocupação em situação de desemprego há mais tempo.

A ampliação do desemprego de longa duração também contribui para o aumento do número de desalentados — aqueles que nem mais procuram trabalho. Quando se juntam a estes o desemprego entre jovens de 18 a 24 anos (25,8% na faixa etária, no segundo trimestre), a alta na subutilização da força de trabalho e a existência de um contingente crescente de trabalhadores informais, o mercado de trabalho brasileiro não aparece bem na fotografia.

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Mundo em crise vai mexer muito com ações e dólar aqui no Brasil http://josepaulokupfer.blogosfera.uol.com.br/2019/08/14/instabilidade-nos-mercados-pode-ter-vindo-para-ficar-por-um-bom-tempo/ http://josepaulokupfer.blogosfera.uol.com.br/2019/08/14/instabilidade-nos-mercados-pode-ter-vindo-para-ficar-por-um-bom-tempo/#respond Wed, 14 Aug 2019 18:14:42 +0000 http://josepaulokupfer.blogosfera.uol.com.br/?p=168 Os mercados financeiros ao redor do mundo, inclusive no Brasil, voltaram a engatar uma onda de vendas, nesta quarta (14), depois de um movimento de acomodação no dia anterior. As instabilidades nas cotações do dólar, nos negócios com ações e nas taxas de juros futuros, que pareciam adormecidas nos últimos tempos, estão agora novamente no centro dos pregões.

Não são, desta vez, eventos pontuais, menos previsíveis, como alguma escalada na guerra comercial entre Estados Unidos e China ou, mais diretamente para os mercados latino-americanos, uma eleição na Argentina que contrariou expectativas políticas de investidores. O que move os mercados para baixo, nesta quarta-feira, é o pano de fundo por trás das próprias instabilidades que contaminam o ambiente dos pregões.

Esse pano de fundo reflete a perspectiva, atualmente já quase uma certeza, de desaceleração mais forte da economia mundial, pouco mais de dez anos depois da última grande crise econômica global. A guerra comercial movida pelo presidente Trump contra os chineses pode até trazer momentos de alívio, como nesta semana, mas está longe de indicar a chegada a um epílogo benigno e só faz reforçar a tendência negativa.

Indicando temores de uma nova temporada recessiva ou de baixíssimo crescimento na economia mundial, a derrubada geral dos mercados, nesta quarta, tem como causa imediata a divulgação nesta manhã de dados de conjuntura econômica ruins em várias partes do mundo, aumentando o estoque de más notícias já acumuladas.

Em todos os mercados de ativos, com destaque para os de taxas de juros futuros, que são os primeiros a antecipar tendências, os sinais, nas ordens de compra e venda, eram de que aumentou a convicção entre os investidores a respeito de uma inevitável redução na atividade econômica global. O recrudescimento das quedas registradas nos mercados são uma expressão concreta dessa percepção.

Bolsas da Europa fecharam em fortes baixas, com recuos acima de 2%, enquanto o mercado americano consolidava uma sessão de perdas. No início da tarde, a Bolsa de Nova York recuava fortes 2,75%. A exceção foram as Bolsas asiáticas, à frente Japão e China, que fecharam com pequenas altas.

O Brasil não ficou imune ao movimento de venda no mercado de ações e de busca de proteção no dólar. O Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores brasileira, ameaçava deixar para trás os 100 mil pontos, com queda de 2,66%, no início da sessão vespertina. No mercado cambial, também no começo da tarde, o dólar comercial era negociado a R$ 4, 02, com alta de 1,3%, enquanto o dólar turismo valia R$ 4,20.

Impossível antecipar os próximos movimentos nos mercados, mas é certo que a insegurança dos investidores, alimentada pelas indicações recorrentes de tropeços crescentes na economia global, desemboca  em hesitações e adiamento  de decisões investimento. Instabilidade nos mercados por um tempo difícil de prever, mas possivelmente longo, é o nome que traduz o ambiente nos mercados. Mas é bom ter em mente que, embora a tendência de prazo mais longo seja a de baixa nos  mercados, eventos ou números melhores, aqui ou ali, podem proporcionar momentos de alívio e alta temporária nas cotações.

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Veja as profissões mais procuradas na batalha do Brasil por produtividade http://josepaulokupfer.blogosfera.uol.com.br/2019/08/14/veja-as-profissoes-mais-procuradas-na-batalha-do-brasil-por-produtividade/ http://josepaulokupfer.blogosfera.uol.com.br/2019/08/14/veja-as-profissoes-mais-procuradas-na-batalha-do-brasil-por-produtividade/#respond Wed, 14 Aug 2019 07:00:18 +0000 http://josepaulokupfer.blogosfera.uol.com.br/?p=141 Para atender às necessidades das novas formas de produção, mais intensas em tecnologia, o Brasil terá de qualificar, até 2023, 10,5 milhões de trabalhadores em ocupações industriais nos níveis superior, técnico, qualificação profissional e aperfeiçoamento. É esse o desafio apontado pelo “Mapa do Trabalho Industrial 2019-2023”, levantamento do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), divulgado nesta segunda-feira (12).

Nos próximos três anos e meio, de acordo com o estudo, a ocupação que apresentará a maior procura pelas empresas será a de condutor de processos robotizados. O número de vagas disponíveis para essa ocupação aumentará 22,4%, no período, enquanto o crescimento médio das ocupações industriais ficará em 8,5%.

O tipo de trabalhador mais procurado será o “transversal”, aquele profissional que pode atuar em várias áreas diferentes, desempenhando funções em pesquisa e desenvolvimento, controle de produção e desenho industrial. Segundo o “Mapa” serão 1,7 milhão de vagas para essa atividade, seguida de perto pela metalmecânica (1,6 milhão), construção (1,3 milhão), logística e transporte (1,2 milhão), alimentos (754 mil), informática (528 mil), eletrônica (405 mil) e energia e telecomunicações (359 mil).

Veja a seguir a lista das profissões de nível superior que serão mais procuradas pela indústria até 2023:

Ocupações industriais de nível superior com maior demanda por formação 

Ocupações

Profissionais a serem qualificados

Analistas de tecnologia da informação

305.172

Engenheiros civis e afins

57.399

Gerentes de produção e operações em empresa da indústria extrativa, de transformação e de serviços de utilidade pública

54.940

Engenheiros de produção, qualidade, segurança e afins

40.283

Gerentes de tecnologia da informação

29.912

Engenheiros eletricistas, eletrônicos e afins

29.237

Engenheiros mecânicos e afins

28.963

Artistas visuais,desenhistas industriais e conservadores-restauradores de bens culturais

25.141

Administradores de tecnologia da informação

23.905

Gerentes de manutenção e afins

18.182

Gerentes de suprimentos e afins

17.865

Gerentes de pesquisa e desenvolvimento e afins

15.021

Arquitetos e urbanistas

14.252

Pesquisadores de engenharia e tecnologia

13.968

Engenheiros químicos e afins

10.116

Gerentes de operações de serviços em empresa de transporte, de comunicação e de logística (armazenagem e distribuição)

9.440

Engenheiros em computação

8.061

Químicos

7.870

Qualificar esse grande contingente de trabalhadores será um desafio e tanto, até mesmo para o Senai, uma das maiores estruturas de ensino profissionalizante do mundo, capaz de absorver quase 2,5 milhões de novos alunos todos os anos. Mas o desafio não se limita ao esforço de qualificar esse exército de pessoas, suficiente para lotar mais de uma centena de estádios como o Maracanã.

Os problemas de adaptação da economia brasileira — e principalmente de sua indústria — aos padrões da empresa digitalizada e conectada 4.0, que já é uma realidade em bom pedaço do mundo, são múltiplos e complexos. Estão presentes dentro e fora das fábricas e escritórios.

Esses problemas se expressam na baixa produtividade da economia, retratada pela relação entre o volume do PIB (Produto Interno Bruto) e o número de horas trabalhadas para produzi-lo. Atualmente, a produtividade do trabalhador brasileiro equivale a 25% da produtividade do trabalhador americano e a 30% da obtida pelos trabalhadores alemães e coreanos.

Significa, em termos práticos, que o trabalhador brasileiro leva uma hora para fazer o que o americano faz em 15 minutos e o alemão ou o coreano produz em 20 minutos. Embora nem sempre tenha sido assim — entre 1950 e 1980, a produtividade do trabalhador brasileiro subiu de 27% para 45% da do americano —, nos últimos 35 anos houve um refluxo, e a distância retornou a 25%. Voltamos ao nível em que estávamos há 70 anos.

As deficiências de qualificação do trabalhador brasileiro são um óbvio e importante fator limitador do aumento da produtividade, mas não o único. Além do capital humano, também o capital físico, representado por máquinas, equipamentos, tecnologias e processos, desempenha papel decisivo na promoção da produtividade.

Ambos estão atrasados em relação às necessidades competitivas brasileiras. “Só 8% dos jovens brasileiros fazem formação técnica em engenharia, enquanto na Alemanha são 50%”, lembra Rafael Lucchesi, diretor geral do Senai. “Mas também dificulta o fato de a idade média dos equipamentos instalados nas fábricas brasileiras ser, por exemplo, o dobro da americana”.

Mesmo que o quadro fosse mais favorável nesses dois itens, faltariam outros elementos para impulsionar a produtividade. Condições de financiamento e, de um modo geral, o ambiente de negócios completam o conjunto de fatores que, quando propícios, favorecem elevações de produtividade, mas, no Brasil, atuam como barreiras.

Empreender e tocar negócios no Brasil é tarefa para gigantes. O emaranhado de leis e normas, que produz insegurança jurídica permanente, se une à burocracia e à exaustiva atividade de manter o pagamento de tributos em dia.

Tudo isso desestimula o investimento em geral e, especificamente, em inovação. Pesquisa publicada em 2018 pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) apontou que 75% das empresas consultadas – ou seja, três em cada quatro – apresentavam apenas graus básicos de digitalização. Empresas na fronteira tecnológica somavam apenas 1,6% da amostra.

O volume total de investimento em Pesquisa & Desenvolvimento (P&D), no Brasil, sempre foi muito baixo em comparação com outros países. Dados anteriores à grande crise iniciada em 2014 indicavam gastos em P&D em torno de US$ 30 bilhões por ano, equivalentes a 1,3% do PIB, dos quais nem 40% correspondiam à fatia do setor privado.

Esse montante colocava o país, em termos absolutos, na décimo lugar entre os que mais aplicavam em P&D. Em proporção do PIB, porém, o Brasil despencava para a 36ª posição. Como reflexo da crise econômica, os números de hoje, segundo especialistas, devem ser ainda mais modestos. 

A perda de impulso no esforço de modernização e inovação, contudo, é anterior a esta última crise econômica e se mostrou presente pelo menos desde o início da década de 2000. O resultado é que, segundo publicação do Ipea sobre o mercado de trabalho, contrastando com a elevação da escolaridade dos trabalhadores, do aumento da formalização do trabalho e da renda, não houve, no período, geração significativa de empregos qualitativamente melhores.

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No que ficar de olho no sobe e desce da Bolsa e do dólar http://josepaulokupfer.blogosfera.uol.com.br/2019/08/13/no-que-ficar-de-olho-no-sobe-e-desce-da-bolsa-e-do-dolar/ http://josepaulokupfer.blogosfera.uol.com.br/2019/08/13/no-que-ficar-de-olho-no-sobe-e-desce-da-bolsa-e-do-dolar/#respond Tue, 13 Aug 2019 18:09:26 +0000 http://josepaulokupfer.blogosfera.uol.com.br/?p=147 O pregão da Bolsa de Valores e a cotação do dólar estão devolvendo nesta terça-feira (13) as perdas registradas no dia anterior. No começo da tarde, o Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, marcava 103,5 mil pontos, em alta de 1,5%. O dólar, que chegou a cair a R$ 3,94, no meio da manhã, com recuo de 0,95%, era negociado a R$ 3,96 (menos 0,5%), no início da tarde.

A principal razão para o movimento de acomodação veio do relaxamento das tensões comerciais entre Estados Unidos e China. Mas também contribuem as declarações tranquilizantes do candidato peronista à presidência da Argentina, Alberto Fernández, vencedor das eleições preliminares do domingo.

Os americanos adiaram para dezembro a imposição de tarifas adicionais sobre importações chinesas antes prevista para setembro. Ao mesmo tempo, autoridades de Pequim anunciavam o acerto de novas rodadas de negociações comerciais com Washington. O alívio se refletiu de imediato nos pregões.

Movimentos de alta ou de baixa muito fortes, num único dia, em mercados de ativos financeiros, caso da Bolsa de Valores, da cotação do dólar e dos juros futuros, costumam ser seguidos de acomodações, nos pregões seguintes. Essa constatação só não é verdade quando a origem das turbulências é uma crise de fundo mais estrutural.

Há um fundo estrutural no cenário do mercado para o futuro, que reflete a tendência de encolhimento da atividade econômica global, talvez com maior evidência já a partir de 2020. Essa perspectiva pode afetar negativamente as cotações mais à frente, mas não foi o motivo central da derrubada geral ocorrida na segunda-feira (12).

Os pregões da segunda foram abalados por um agudo recrudescimento da já longa guerra comercial entre Estados Unidos e China, que opõe as duas maiores economias do mundo. Essa disputa tem potencial de sobra para provocar contrações no comércio internacional e, a partir daí, reforçar as tendências recessivas nas economias nacionais.

No caso dos países emergentes, sobretudo os latino-americanos e, em especial, o Brasil, ao pano de fundo dos estranhamentos entre EUA e China, adicionou-se o autêntico pânico vivido no mercado argentino. A reação turbulenta na Argentina foi uma resposta à ampla vitória da chapa peronista sobre o presidente liberal Mauricio Macri, nas eleições preliminares para o pleito presidencial de outubro.

A forte turbulência, que levou a Bolsa de Buenos Aires ao chão, jogou a cotação do dólar em pesos às alturas e forçou uma elevação selvagem da taxa básica de juros pelo Banco Central, contaminou os mercados vizinhos. A começar pelo Brasil, de quem a Argentina é o terceiro maior parceiro comercial e sócio mais relevante no Mercosul.

Com ânimos pelo menos temporariamente mais calmos na Argentina e sinais, ainda que tênues, de uma luz no fim das querelas comerciais entre americanos e chineses, os mercados encontraram espaço para ajustar melhor suas posições. Bolsas subiram mundo afora, e o dólar recuou na maioria dos pregões.

Mas, atenção: isso não significa que novas turbulências não possam estar a caminho. A verdade é que a expectativa de uma desaceleração da economia mundial vem crescendo, e esse é o ponto a se ficar de olho.

Passados mais de dez anos do início da grande crise global de 2008, forma-se um consenso de que, depois de um ciclo relativamente longo de recuperação nada brilhante, mas firme, a retração é certa. O que está faltando saber é se o novo ciclo de retração da atividade econômica global é para já, em breve ou daqui mais um pouco de tempo.

Assimetrias entre ativos em alta e economia em trajetória descendente produzem incertezas e elevam a sensibilidade dos investidores. Qualquer movimento mais brusco no cotidiano econômico, nesse tipo de ambiente, deflagra movimentos de compra e venda mais exagerados.

Os mercados brasileiros não escapam a esse quadro. Como nas demais praças financeiras ao redor do mundo, aqui também a assimetria entre a fragilidade da economia e a pujança dos investimentos financeiros está presente. O risco de que alguma hora um ajuste acabe se impondo é o que provoca estresses e reviravoltas nos pregões, privilegiando posições defensivas entre os investidores.

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O que explica derrubada da Bolsa e alta do dólar e até onde isso pode ir http://josepaulokupfer.blogosfera.uol.com.br/2019/08/12/o-que-explica-derrubada-da-bolsa-e-alta-do-dolar-e-ate-onde-isso-pode-ir/ http://josepaulokupfer.blogosfera.uol.com.br/2019/08/12/o-que-explica-derrubada-da-bolsa-e-alta-do-dolar-e-ate-onde-isso-pode-ir/#respond Mon, 12 Aug 2019 16:16:05 +0000 http://josepaulokupfer.blogosfera.uol.com.br/?p=137 A manhã desta segunda-feira (12) foi agitada na Bolsa de Valores e no mercado de dólares. O índice Ibovespa, o principal do mercado de ações brasileiro, caiu mais de 2% no pregão da parte da manhã, perdendo 2.000 pontos e descendo de 104 mil pontos para menos de 102 mil.

No mercado cambial, a cotação do dólar comercial avançou para mais de R$ 4, com alta de mais de 1,5%. No fim da manhã, a moeda americana valia R$ 3,99. Os juros futuros também operavam em alta, indicando aumento das incertezas e dos temores com a marcha lenta da economia.

Todo esse movimento se deve, principalmente, a razões externas. A primeira e mais impactante delas deriva das repercussões da vitória da chapa de centro-esquerda kirchnerista nas eleições primárias na Argentina. A chapa do presidente Mauricio Macri foi derrotada por larga margem (mais de 15 pontos de diferença).

Essas eleições funcionam como uma prévia do pleito presidencial de outubro. Na tradição política argentina, derrota por margem tão alta nas prévias eleitorais sinaliza possibilidade real de vitória da chapa vencedora em agosto nas eleições efetivas de outubro –talvez até mesmo em primeiro turno.

A perspectiva de reversão política no país vizinho, um dos principais parceiros comerciais do Brasil, afetou negativamente os mercados financeiros no Brasil, atingindo também os demais mercados latino-americanos. Mas outros motivos se somaram para acelerar perdas nos pregões.

Nesta segunda-feira, a Bolsa de Nova York abriu em queda, refletindo nova desvalorização da moeda chinesa, que continuou a ser cotada acima de 7 yuans por dólar. As cotações do yuan são em parte controladas pelo Banco Popular da China. 

Ao insistir numa moeda mais desvalorizada, os chineses mantiveram acesos nos mercados globais os sinais de alerta produzidos pelo prolongamento da guerra comercial travada entre EUA e China, agora agravados pelas tensões políticas em Hong Kong. Já está claro que a escalada na guerra comercial entre as duas maiores economias mundiais promoverá um encolhimento do comércio internacional, com impactos negativos sobre as economias nacionais.

Ainda que as cotações procurem zonas de acomodação nos mercados financeiros, a insegurança em relação ao ambiente econômico no futuro próximo é agora a tônica nos mercados globais, incluindo os das economias emergentes, como é o caso do Brasil. Isso significa que, com a alta da sensibilidade dos investidores, aqui e no exterior, novos movimentos de corrida contra os ativos —ações e moedas, na linha de frente— não podem tão cedo serem retirados do radar dos investidores.

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Números indicam que economia brasileira perdeu o primeiro semestre http://josepaulokupfer.blogosfera.uol.com.br/2019/08/09/numeros-indicam-que-economia-brasileira-perdeu-o-primeiro-semestre/ http://josepaulokupfer.blogosfera.uol.com.br/2019/08/09/numeros-indicam-que-economia-brasileira-perdeu-o-primeiro-semestre/#respond Fri, 09 Aug 2019 14:56:59 +0000 http://josepaulokupfer.blogosfera.uol.com.br/?p=121 A divulgação do volume de serviços prestados em junho, nesta sexta-feira (9), completa o rol de informações básicas que permitem medir a dinâmica da atividade econômica no segundo trimestre do ano e no primeiro semestre. Depois de conhecidos os resultados da indústria e do varejo no mesmo período, a perspectiva é de que a economia tenha patinado na primeira metade de 2019.

Houve recuo de 1% no volume de serviços, na comparação de junho com maio, depois da estabilidade registrada em maio sobre abril. No segundo trimestre do ano, em relação ao primeiro, os serviços caíram 0,6%, pior resultado para o mês desde 2015. Considerando o conjunto do primeiro semestre de 2019, a atividade no setor avançou 0,6%, enquanto a taxa acumulada em 12 meses apontou expansão de 0,7%. 

Embora maio tenha oferecido uma perspectiva melhor para a atividade econômica em geral, junho reverteu a expectativa do início de uma recuperação. No segundo trimestre, na comparação com o primeiro, a indústria encolheu 0,7% e o comércio teve queda de 0,3%. Somente o comércio ampliado, que inclui venda de veículos e de material de construção, apesar da estabilidade no mês, registrou alta trimestral (de 1,2%).

Não há ainda consenso em relação ao que vai apontar a variação do Produto Interno Bruto (PIB) no intervalo abril-junho, previsto para ser anunciado pelo IBGE no fim de agosto. Mas há concordância de que o número virá ligeiramente positivo ou ligeiramente negativo, convergindo para a estabilidade. Computada a queda de 0,2% no PIB do primeiro trimestre, a conclusão é a de que o primeiro semestre, em termos de expansão da atividade, foi perdido.

Caso se confirme uma queda do PIB no segundo trimestre, a economia brasileira registrará uma situação de “recessão técnica”, definida quando há retração da atividade por dois trimestres consecutivos. A classificação não tem maiores consequências práticas, indicando apenas a fragilidade dos fatores de impulsão econômica.

O setor de serviços considerado na pesquisa mensal do IBGE, exclui as atividades financeiras e do varejo. Apura, entre outros, o movimento dos negócios em hotéis, restaurantes, escritórios de prestação de serviços administrativos e técnicos, agências de publicidade, operadoras de telecomunicações e transportes em geral.

Muitos dos serviços são interligados com a atividade industrial, caso do setor de transportes de cargas. Com a indústria em estado de hibernação, os serviços acabam negativamente afetados. O fraco desempenho do segmento dos transportes também no segundo trimestre está na base dos números decepcionantes dos serviços no período, abaixo das expectativas dos analistas.

Mesmo admitindo uma recuperação no segundo semestre, com a colaboração da liberação de recursos do FGTS e do PIS/Pasep, os números insatisfatórios da atividade econômica na primeira metade do ano devem levar a revisões para baixo nas estimativas para a expansão do PIB em 2019. Novas projeções de crescimento no ano podem vir abaixo de 1%.

]]> 0 A inflação continua muito baixa e isso não é sinal de economia saudável http://josepaulokupfer.blogosfera.uol.com.br/2019/08/08/a-inflacao-continua-muito-baixa-e-isso-nao-e-sinal-de-economia-saudavel/ http://josepaulokupfer.blogosfera.uol.com.br/2019/08/08/a-inflacao-continua-muito-baixa-e-isso-nao-e-sinal-de-economia-saudavel/#respond Thu, 08 Aug 2019 12:14:48 +0000 http://josepaulokupfer.blogosfera.uol.com.br/?p=108 Tanto quanto uma taxa de inflação muito alta, uma taxa de inflação muito baixa é sinal indesejável de distorções e desequilíbrios na economia. Por isso, a inflação muito bem comportada em julho, pode não parecer, mas é uma confirmação de que a situação econômica continua preocupante.

Medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), calculado pelo IBGE, a inflação em julho registrou alta de 0,19%. Isso fez com que a taxa acumulada em 12 meses recuasse de 3,36% em junho para 3,22%. O número mantém a inflação bem abaixo do centro da meta para 2019, de 4,25% no ano. No ano, até julho, a alta de preços não passou de 2,42%. A previsão do momento para o fim do ano de 2019 é de uma variação de apenas 3,8%, mas deve recuar depois do resultado de julho, que veio abaixo das projeções dos analistas.

Assim como preocupa quando um corpo humano está com temperatura muito superior à normalidade de 36,5 graus centígrados, também preocupa quando o corpo humano mostra temperatura abaixo desse ponto. A atual trajetória da inflação é um indicador de que o corpo econômico está frio — e necessitado de remédios que o aqueçam.

O termômetro que mede a inflação aponta desequilíbrios entre a oferta de bens e serviços e a procura por eles. De um modo simplificado, se a oferta é insuficiente para atender à procura existente, a marcação do termômetro sobe e a inflação aumenta. Na situação inversa, quando a oferta supera a procura, a inflação tende a se manter baixa.

É nessa segunda situação que se encontra a economia brasileira há cinco anos. A produção total atual ainda é mais de 5% inferior ao pico alcançado antes da recessão que teve início no segundo trimestre de 2014 e durou, tecnicamente, até fins de 2016. E a demanda, com mais de 12 milhões de desempregados, um exército de mais de 25 milhões de trabalhadores subutilizados e mais de 60 milhões de endividados, está no chão.

A saída da recessão, no último trimestre de 2016, se deu por uma retomada que se mostrou fraca. Em 2017 e 2018, o crescimento a cada ano não passou de 1% e 2019 vai na mesma marcha, denotando um estado de estagnação econômica ou de quase recessão. Projeções mostram que, mantido o ritmo de expansão dos últimos dois anos, só em 2024, mais de dez anos depois da entrada na recessão, o Produto Interno Bruto (PIB) voltaria a ser maior do que o de 2013.

Quando se fala em inflação, não custa lembrar que o fenômeno não expressa a ocorrência de preços altos. Inflação, por definição, descreve altas persistentes de preços. Não basta, assim, que os preços de alguns produtos tenha subido para, automaticamente, determinar uma alta da inflação. Não se vê inflação na feira livre ou no supermercado.

O conceito de inflação, tão presente no cotidiano de todos, no fundo, é uma abstração. Sua concretização no dia a dia se traduz pela variação de preços de uma cesta de produtos e serviços, entre dois períodos de tempo, correspondente ao consumo mensal de um cidadão médio teórico.

Obtida por pesquisas periódicas de orçamentos familiares, as variações de preços dessa cesta padrão, portanto, não exprimem, a rigor, a inflação de ninguém — cada um, dependendo do que consume, tem a sua própria inflação. É por convenção, enfim, que as variações de preços deste conjunto de produtos e serviços são aceitas como a expressão da inflação de todos.

No sistema de metas de inflação, adotado no Brasil desde 1999, o Banco Central deve utilizar os instrumentos da politicamente monetária, principalmente a administração da taxa básica de juros (taxa Selic), para manter a inflação o mais perto possível do centro da meta estabelecida.

Nos anos de 2017 e 2018, a inflação ficou abaixo do centro da meta. Em 2017 fechou em 2,95%, abaixo até mesmo do piso do intervalo de tolerância da meta, que previa desvio de 1,5 ponto, para mais ou para menos, em relação ao centro. No ano seguinte, embora dentro do intervalo de tolerância, a inflação bateu em 3,75%, novamente abaixo do centro.

Como 2019 também deve terminar com a inflação abaixo do centro da meta, serão três anos em que o Banco Central falhou em conduzir a inflação para o seu devido lugar. A taxa básica de juros não foi levada ao ponto ótimo, mas permaneceu acima dele, apesar da declaração recorrente nos comunicados do Banco Central de que a Selic se encontra em “terreno estimulativo” da atividade econômica.

A inflação muita baixa, o “novo normal” dos últimos tempos, porém, antes de sinalizar uma economia saudável, como poderia parecer, é um indicador das barreiras e dificuldades de longa duração que atormentam a produção e afligem empresários, trabalhadores e consumidores. Não deixa de ser uma forma de lembrar a incômoda presença de alta capacidade ociosa e vasto desemprego no cenário econômico.

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