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José Paulo Kupfer

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Emprego melhora um pouco, mas quem trabalha está ganhando menos

José Paulo Kupfer

31/07/2019 14h40

A taxa de desemprego, nos meses de abril a junho, recuou tanto em relação ao intervalo de janeiro e março quanto na comparação com período abril-junho do ano passado. Ficou em 12% do conjunto das pessoas com alguma ocupação, mesmo parcial, somadas às aquelas que procuravam trabalho no período da pesquisa, segundo a Pnad Contínua, pesquisa regular do IBGE sobre o mercado de trabalho. No trimestre anterior (janeiro-março), o desemprego estava em 12,7%. Há um ano era de 12,4%. Desempregados diretos formam agora um exército de 12,8 milhões de pessoas.

Isso quer dizer que a economia está se recuperando e as condições no mercado de trabalho, melhorando? A resposta é um "depende", com tendência mais para um "ainda não". Quando se vai ao detalhe, eliminados os efeitos sazonais — maior ou menor número de dias úteis entre um período de comparação e outro — e separando o total de trabalhadores com e sem carteira assinada, o retrato do mercado de trabalho mostra alguns progressos, mas no geral continua, como se diz, inspirando cuidados.

Descontados os efeitos sazonais, por exemplo, a taxa de desemprego no trimestre encerrado em junho ficou estável em 11,9%, na comparação com o trimestre terminado em março. Além disso, mais uma vez, o recuo na taxa de desemprego se deveu a um aumento no pessoal ocupado em atividades sem carteira e na mão de obra subutilizada.

Aumentou o número de pessoas trabalhando sem registro, assim como subiu o total de pessoas que trabalha por conta própria, sem documento de empresa individual ou semelhante — em bom português, a turma que se vira nos 30. Junho registrou um recorde de 11,5 milhões de pessoas trabalhando sem carteira, assim como era recorde o número de 24 milhões de pessoas trabalhando por conta própria.

É preciso abrir o olho e avaliar esses números com cuidado. Tradicionalmente, a informalidade denota estreitamento ou deterioração do mercado de trabalho. Mas, nos tempos atuais, é preciso considerar o avanço da economia digital e das novas relações de trabalho, que fogem dos empregos regulados.

Parte da informalidade e dos "por conta própria" pode apontar para os precários vivendo a "uberização" do trabalho. Mas pode englobar também, por exemplo, empregados convencionais registrados como pessoa jurídica.

De todo modo, e apesar de lenta, está ocorrendo uma absorção positiva de trabalhadores com carteira assinada. Houve alta trimestral de 0,9% no contingente representado pelo grupo. A notícia é importante porque se trata do primeiro aumento de empregados com carteira assinada em cinco anos.

O retrato atual do mercado de trabalho, numa visão geral, continua revelando uma moeda de duas faces. Ao lado, por exemplo, da incorporação recorde de 2,4 milhões de pessoas, com ou sem carteira, verifica-se que 40% deles são subutilizados.

Falar nisso, a taxa de subutilização também atingiu um recorde, no trimestre findo em junho, com 28,5 milhões de trabalhadores nessa situação, expressando 25% da força de trabalho. Ou seja, um em cada quatro trabalhadores brasileiros só encontra ocupação em atividades que consomem menos horas do que ele poderia e desejaria dedicar. Nesse grupo estão incluídos os persistentes quase 5 milhões de "desalentados", aqueles que, considerando estarem fechadas as portas do mercado, desistiram de procurar trabalho.

Um bom comprovante desse quadro de melhora muito lenta do mercado de trabalho — acompanhando, diga-se, a progressão também muito lenta da atividade econômica em geral — aparece nos indicadores de remuneração vigentes. Com a contratação de pessoal por valores inferiores aos que recebiam os demitidos, a remuneração média habitual (R$ 2.290) recuou no trimestre (R$ 2.321, no trimestre janeiro-março) e se manteve sem variações significativas na comparação com os valores de um atrás (R$ 2.295).

Existem perspectivas de que o mercado de trabalho consiga abrir mais vagas de melhor qualidade daqui para frente. Por uma questão sazonal, assim como o segundo trimestre costuma ser mais positivo do que o primeiro — porque no primeiro ocorrem dispensas dos temporários contratados no fim do ano —, o segundo semestre tende a ser mais propício do que o primeiro.

Além disso, desta vez, há expectativas de adoção pelo governo de medidas de estímulo ao consumo. A liberação, ainda que restrita, de valores das contas individuais do FGTS já em vigor é o primeiro passo de um movimento que pode beneficiar o mercado e aliviar o drama dos trabalhadores em busca de trabalho.

Sobre o Autor

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

Sobre o Blog

Análises e contextualizações para entender o dia a dia da economia e das políticas econômicas, bem como seus impactos sobre o cotidiano das pessoas, sempre com um olhar independente, social e crítico. Finanças pessoais e outros temas de interesse geral fazem parte do pacote.