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José Paulo Kupfer

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Por que discurso radical de Bolsonaro pode afetar o crescimento do país?

José Paulo Kupfer

07/08/2019 04h00

Investimentos são cruciais para garantir que o crescimento econômico, quando vier, não seja apenas mais um soluço, um "voo de galinha". Mas o presidente Jair Bolsonaro, com suas declarações, atitudes e ações, tem contribuído para inocular dúvidas nas decisões de investimento. Pode, assim, acabar prejudicando a expansão dos negócios.

A explicação para isso é simples. Ao avançar no discurso radical, Bolsonaro ajuda a reforçar incertezas no ambiente de negócios. Quanto mais incerto o ambiente de negócios, menos investimentos serão decididos.

Condições específicas são requeridas para que os investimentos descolem do nível historicamente mais baixo em que se encontram para ganhar músculos e impulsionar uma tão desejável quanto necessária expansão econômica. É preciso que haja confiança de que o futuro econômico será melhor do que o presente. Necessário também que os custos dos financiamentos sejam mais baixos do que os ganhos esperados. Nada disso é suficiente, porém, se não houver uma massa de consumidores disposta a adquirir maior quantidade de produtos ou serviços oferecidos.

Com o alinhamento a regimes autoritários, ataques à preservação do meio ambiente, restrições às regras de proteção dos direitos civis (nas quais se incluem o tratamento diferenciado das populações indígenas) e desequilíbrios no trato das relações trabalhistas, o comportamento de Bolsonaro tem sido um manancial de turbulências. E turbulências tendem a minar a confiança dos investidores, envenenando as decisões de investimento.

No caso dos investidores estrangeiros, as coisas ficam mais difíceis porque muitos deles, por pressão de acionistas e das sociedades de seus países, se veem obrigados a desistir de aplicar recursos onde proteção ambiental e trabalhista é menosprezada. No caso dos brasileiros, porque o modo de governar de Bolsonaro produz polarizações e turva o ambiente político, torpedeando a decisão de investir, em meio à capacidade ociosa e ao desemprego ainda altos.

Um exemplo recente dos riscos para os investimentos — e, portanto, para o crescimento — criados pelo comportamento do presidente pode ser encontrado na ampla repercussão negativa da reportagem de capa e do editorial da edição da semana passada da revista semanal britânica "The Economist. A partir de um extenso levantamento do aumento do desmatamento na Amazônia, a publicação, talvez a mais influente em todo o mundo, conclama a comunidade internacional a "deixar claro" que não vai tolerar o "vandalismo" de Bolsonaro em relação ao meio ambiente. A revista chega a propor um boicote às exportações brasileiras se a Amazônia não for preservada.

Outro caso, na mesma direção negativa e também recente, envolveu uma desfeita ao ministro das Relações Exteriores da França, Jean-Yves Le Drian, em visita ao Brasil. Da agenda do francês constava um encontro com Bolsonaro, mas o presidente decidiu desmarcá-lo na última hora e apareceu, em vídeo, no horário da conversa, cortando o cabelo. Representante de um governo central na concretização do acordo comercial Mercosul-União Europeia, já de volta a Paris, Le Drian mostrou que não engolira o gesto descortês de Bolsonaro e, de modo irônico, atribuiu a não realização da conversa entre ambos a uma "urgência capilar" do presidente brasileiro.

Atitudes assim dificultam a concretização de investimentos. Talvez nessas horas Bolsonaro se esqueça que a aplicação de novos recursos na ampliação da capacidade de produção é fundamental para melhorar a produtividade e a competitividade da economia, fazendo-a rodar no sentido positivo.

Mais investimentos garantem mais empregos, mais consumo e maior arrecadação de impostos com menores pressões inflacionárias. Sem eles, é até possível ocupar a capacidade ociosa existente e animar a produção, mas o muro no qual a economia vai bater aparecerá logo ali.

Difícil entender por que um mesmo governo empenhado em reequilibrar as contas públicas e recobrar a confiança empresarial — fator considerado chave pela equipe econômica para retomar o investimento — opere, pelas atitudes e ações de seu chefe, na contramão desse empenho. Ao preferir polêmicas e controvérsias, Bolsonaro pode agradar seus apoiadores de raiz, mas sem dúvida trabalha contra uma retomada do crescimento mais rápida e mais consistente.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre o Autor

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

Sobre o Blog

Análises e contextualizações para entender o dia a dia da economia e das políticas econômicas, bem como seus impactos sobre o cotidiano das pessoas, sempre com um olhar independente, social e crítico. Finanças pessoais e outros temas de interesse geral fazem parte do pacote.