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No que ficar de olho no sobe e desce da Bolsa e do dólar

José Paulo Kupfer

13/08/2019 15h09

O pregão da Bolsa de Valores e a cotação do dólar estão devolvendo nesta terça-feira (13) as perdas registradas no dia anterior. No começo da tarde, o Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, marcava 103,5 mil pontos, em alta de 1,5%. O dólar, que chegou a cair a R$ 3,94, no meio da manhã, com recuo de 0,95%, era negociado a R$ 3,96 (menos 0,5%), no início da tarde.

A principal razão para o movimento de acomodação veio do relaxamento das tensões comerciais entre Estados Unidos e China. Mas também contribuem as declarações tranquilizantes do candidato peronista à presidência da Argentina, Alberto Fernández, vencedor das eleições preliminares do domingo.

Os americanos adiaram para dezembro a imposição de tarifas adicionais sobre importações chinesas antes prevista para setembro. Ao mesmo tempo, autoridades de Pequim anunciavam o acerto de novas rodadas de negociações comerciais com Washington. O alívio se refletiu de imediato nos pregões.

Movimentos de alta ou de baixa muito fortes, num único dia, em mercados de ativos financeiros, caso da Bolsa de Valores, da cotação do dólar e dos juros futuros, costumam ser seguidos de acomodações, nos pregões seguintes. Essa constatação só não é verdade quando a origem das turbulências é uma crise de fundo mais estrutural.

Há um fundo estrutural no cenário do mercado para o futuro, que reflete a tendência de encolhimento da atividade econômica global, talvez com maior evidência já a partir de 2020. Essa perspectiva pode afetar negativamente as cotações mais à frente, mas não foi o motivo central da derrubada geral ocorrida na segunda-feira (12).

Os pregões da segunda foram abalados por um agudo recrudescimento da já longa guerra comercial entre Estados Unidos e China, que opõe as duas maiores economias do mundo. Essa disputa tem potencial de sobra para provocar contrações no comércio internacional e, a partir daí, reforçar as tendências recessivas nas economias nacionais.

No caso dos países emergentes, sobretudo os latino-americanos e, em especial, o Brasil, ao pano de fundo dos estranhamentos entre EUA e China, adicionou-se o autêntico pânico vivido no mercado argentino. A reação turbulenta na Argentina foi uma resposta à ampla vitória da chapa peronista sobre o presidente liberal Mauricio Macri, nas eleições preliminares para o pleito presidencial de outubro.

A forte turbulência, que levou a Bolsa de Buenos Aires ao chão, jogou a cotação do dólar em pesos às alturas e forçou uma elevação selvagem da taxa básica de juros pelo Banco Central, contaminou os mercados vizinhos. A começar pelo Brasil, de quem a Argentina é o terceiro maior parceiro comercial e sócio mais relevante no Mercosul.

Com ânimos pelo menos temporariamente mais calmos na Argentina e sinais, ainda que tênues, de uma luz no fim das querelas comerciais entre americanos e chineses, os mercados encontraram espaço para ajustar melhor suas posições. Bolsas subiram mundo afora, e o dólar recuou na maioria dos pregões.

Mas, atenção: isso não significa que novas turbulências não possam estar a caminho. A verdade é que a expectativa de uma desaceleração da economia mundial vem crescendo, e esse é o ponto a se ficar de olho.

Passados mais de dez anos do início da grande crise global de 2008, forma-se um consenso de que, depois de um ciclo relativamente longo de recuperação nada brilhante, mas firme, a retração é certa. O que está faltando saber é se o novo ciclo de retração da atividade econômica global é para já, em breve ou daqui mais um pouco de tempo.

Assimetrias entre ativos em alta e economia em trajetória descendente produzem incertezas e elevam a sensibilidade dos investidores. Qualquer movimento mais brusco no cotidiano econômico, nesse tipo de ambiente, deflagra movimentos de compra e venda mais exagerados.

Os mercados brasileiros não escapam a esse quadro. Como nas demais praças financeiras ao redor do mundo, aqui também a assimetria entre a fragilidade da economia e a pujança dos investimentos financeiros está presente. O risco de que alguma hora um ajuste acabe se impondo é o que provoca estresses e reviravoltas nos pregões, privilegiando posições defensivas entre os investidores.

Sobre o Autor

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

Sobre o Blog

Análises e contextualizações para entender o dia a dia da economia e das políticas econômicas, bem como seus impactos sobre o cotidiano das pessoas, sempre com um olhar independente, social e crítico. Finanças pessoais e outros temas de interesse geral fazem parte do pacote.

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