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José Paulo Kupfer

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Aumento de desempregados “enferrujados" dificulta redução do desemprego

José Paulo Kupfer

15/08/2019 15h19

Aumentou, no segundo trimestre deste ano, o número de desempregados que procuram ocupação há mais de dois anos sem conseguir colocação. A informação divulgada na PNAD Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua), em sua edição trimestral, nesta quinta-feira (15), é das mais preocupantes entre as muitas preocupações com origem na complicada situação do mercado de trabalho.

Trabalhadores desempregados há mais de dois anos sem conseguir colocação somam 3,35 milhões. São quase mais 200 mil pessoas do que no segundo trimestre do ano passado. Esse contingente corresponde a pouco mais de um quarto do total de desocupados. Ou seja, um em cada quatro trabalhadores está sem trabalho há mais de dois anos.

Desempregados há mais de um ano chegam, neste segundo trimestre de 2019, a um total de 5,1 milhões de pessoas. Cerca de 40% dos desempregados procuravam colocação há mais de um ano, tempo de "espera" considerado pela OIT (Organização Internacional do Trabalho) como de "longa duração".

O exército de desempregados há mais de dois anos vem aumentando ano a ano a partir de 2015, quando havia 1,4 milhão de pessoas nessa difícil condição, expressando um acréscimo de 20% sobre 2014. De lá para cá, o grupo cresceu 130% — está uma vez e um terço maior.

Ficar desempregado involuntariamente por mais de dois anos tem consequências graves para o trabalhador e para o mercado de trabalho. É como se a mão de obra enferrujasse e não conseguisse se adaptar às rotinas de trabalho mais atualizadas.

A dificuldade de recolocação para trabalhadores "enferrujados" resulta, do ponto de vista da economia, em barreira adicional para reduzir o desemprego geral. Isso porque essas pessoas terão muito mais dificuldade em encontrar um posição de trabalho e permanecerão mais tempo nas estatísticas de desemprego.

Prova disso é que tem havido recolocação mais rápida no grupo de desempregados entre um mês e um ano. Mas vem aumentando a proporção de pessoas que procuram ocupação em situação de desemprego há mais tempo.

A ampliação do desemprego de longa duração também contribui para o aumento do número de desalentados — aqueles que nem mais procuram trabalho. Quando se juntam a estes o desemprego entre jovens de 18 a 24 anos (25,8% na faixa etária, no segundo trimestre), a alta na subutilização da força de trabalho e a existência de um contingente crescente de trabalhadores informais, o mercado de trabalho brasileiro não aparece bem na fotografia.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre o Autor

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

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Análises e contextualizações para entender o dia a dia da economia e das políticas econômicas, bem como seus impactos sobre o cotidiano das pessoas, sempre com um olhar independente, social e crítico. Finanças pessoais e outros temas de interesse geral fazem parte do pacote.