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José Paulo Kupfer

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Ameaça no G7 não vingou, mas riscos para o agronegócio não foram eliminados

José Paulo Kupfer

26/08/2019 13h41

Boicote a exportações brasileiras e implosão do acordo comercial Mercosul-União Europeia, que desembarcaram em Biarritz, França, no começo do fim de semana da reunião do G7, o grupo dos países mais industrializados, deram lugar, ao final do encontro, a uma posição mais ponderada de ajuda ao controle das queimadas na Amazônia. Mas os riscos de prejuízos ao agronegócio brasileiro ainda convivem com a fuligem tóxica das queimadas recordes na região.

Os líderes do G7 jogaram água fria na fervura levantada pelo presidente francês, Emmanuel Macron, em reação aos desmatamentos na Amazônia. Macron, anfitrião do encontro de líderes globais, deu à temporada de queimadas na Amazônia um caráter de crise internacional, lançando pesadas críticas ao presidente brasileiro, Jair Bolsonaro. Num tom agressivo e estranho ao padrão diplomático conhecido, referindo-se uma conversa entre os dois sobre meio ambiente, na cúpula do G20, em junho, no Japão, Macron chegou a chamar Bolsonaro de "mentiroso".

Na véspera da reunião de Biarritz, o governo finlandês, que ocupa no momento a presidência da União Europeia, fazendo coro com Macron, colocou na mesa a ameaça de um boicote às exportações brasileiras de carne bovina. No encerramento da cúpula do G7, no entanto, as ameaças deram lugar a uma abertura para a cooperação com o Brasil e demais países da região na preservação da floresta amazônica.

Mesmo com a dissipação do pior cenário, o agronegócio brasileiro e, indiretamente, a inserção do Brasil nas cadeias do comércio exterior sofreram prejuízos de imagem que custarão a ser superados. A crise das queimadas na Amazônia reorientou as lentes dos importadores — principalmente europeus, mas não só eles — para a sustentabilidade das exportações brasileiras.

É ingenuidade considerar que os ataques de líderes de países importadores de produtos do Brasil não têm vinculação com cálculos políticos voltados para o público interno, sobretudo na defesa de interesses dos poderosos produtores agrícolas locais. Mas também é ingênuo achar que não existem fortes pressões de consumidores — que também são eleitores — por mais responsabilidade ambiental e social na produção e nas transações comerciais.

São inúmeras as indicações de que os mercados externos, principalmente o europeu, rejeitam produtos fabricados e vendidos sem certificados de responsabilidade ambiental, social e trabalhista. Mas basta uma visita às gôndolas de qualquer supermercado em quase todas as partes do mundo para ter certeza da predominância dessa preocupação, nos dias de hoje. A profusão de embalagens apregoando a produção orgânica, livre de agrotóxicos, respeito às normas trabalhistas e sob condições de bem-estar animal é suficiente para não deixar dúvidas.

O tamanho do mercado externo do agronegócio brasileiro não permite manter atitudes irresponsáveis com o meio ambiente, do tipo das que marcaram os primeiros sete meses do governo Bolsonaro. Só de janeiro a julho deste ano, as exportações do agronegócio somaram perto de US$ 60 bilhões. Esse montante corresponde a cerca de metade das vendas brasileiras ao exterior, no período.

Pela projeção das cifras envolvidas, também os riscos de implosão do acordo comercial do Mercosul com a União Europeia deveriam ser denodadamente evitados. O próprio ministério da Economia calcula que, com o acordo, haveria um acréscimo de US$ 100 bilhões nas exportações brasileiras para o bloco europeu, em 15 anos. E que o PIB seria ampliado em até US$ 125 bilhões, no mesmo período.

Tensões no comércio exterior, sempre presentes em razão da forte competição por mercados externos entre países e blocos, têm se acirrado com o prolongamento da guerra comercial Estados Unidos-China. Por isso, a imposição de sanções e barreiras não tarifárias, principalmente de caráter fitossanitário, com objetivos protecionistas, para as quais não são necessários muitos motivos, vem se tornando ainda mais frequente.

Sob qualquer aspecto, não faz sentido um competidor internacional do tamanho do Brasil oferecer motivos adicionais para ser barrado ou enfrentar barreiras adicionais no comércio exterior. Mesmo falando grosso nas redes sociais, Bolsonaro foi enquadrado e recuou das atitudes mais belicosas no episódio do desmatamento da Amazônia. As bravatas antiambientais do presidente, incluindo ameaças de facilitar invasões de territórios indígenas na região, produziram estragos inéditos na imagem do país e ainda podem estimular a criação de barreiras desnecessárias ao agronegócio brasileiro.

  

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre o Autor

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

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Análises e contextualizações para entender o dia a dia da economia e das políticas econômicas, bem como seus impactos sobre o cotidiano das pessoas, sempre com um olhar independente, social e crítico. Finanças pessoais e outros temas de interesse geral fazem parte do pacote.