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José Paulo Kupfer

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Comércio exterior mais fraco ajuda a pressionar cotações do dólar

José Paulo Kupfer

02/09/2019 18h28

Com quedas, em relação a julho, tanto no volume de exportações quanto no de importações, a balança comercial registrou saldo de US$ 3,2 bilhões em agosto. O resultado, divulgado nesta segunda-feira, ficou dentro das expectativas dos analistas e reforçou a tendência de retração nos saldos em 2019, na comparação com 2018.

De janeiro a agosto deste ano, as exportações somaram US$ 148,8 bilhões, enquanto as importações alcançaram US$ 117,1 bilhões, com saldo acumulado no ano de US$ 31,7 bilhões. O saldo comercial em  2019 até agosto é o menor desde 2016.

A desaceleração da economia mundial, alimentada pela guerra comercial entre Estados Unidos e China, está na base da explicação para a tendência de queda das exportações. Nos últimos meses e, sobretudo, em agosto, o agravamento da crise econômica na Argentina trouxe novos impactos negativos, com ênfase para as vendas externas brasileiras de automóveis e autopeças.

No lado das importações, os recuos refletem a fraca atividade econômica doméstica. No acumulado do ano, porém, o ritmo de queda das compras do exterior tem sido menor do que o das exportações, indicando uma tendência de redução dos saldos comerciais.

Embora a situação das contas externas permaneça confortável, a tendência é a de algum aperto na balança em contas correntes. Em julho, o déficit mensal anualizado do conjunto das transações brasileiras com o exterior chegou a US$ 75 bilhões.

Este é mais um indicativo de que as cotações do dólar podem continuar pressionadas. Outros sinais dessa tendência vêm da saída de capitais, estimulada pelas incertezas e instabilidades na economia global, da consequente queda nas cotações das commodities e das perspectivas de novos cortes pelo Banco Central brasileiro nas taxas básicas de juros.

No sistema de câmbio flutuante, adotado pelo Brasil, as taxas de juros e as cotações do dólar costumam operar como vasos comunicantes. Reduções de juros, que estreitam a distância para as taxas externas, tendem a refletir altas do dólar no mercado cambial local. No sentido contrário, altas nos juros básicos operam na direção da valorização do real ante a moeda americana.

Os investimentos estrangeiros diretos no Brasil continuam em nível elevado, mas recursos externos aplicados no mercado financeiro brasileiro enfrentam uma fase de refluxo. O volume de investimentos estrangeiros em carteira — ações e papéis de renda fixa — encolheu cerca de US$ 25 bilhões, no acumulado dos 12 meses encerrados em julho.

Prever os movimentos no mercado cambial é sempre exercício de risco. No cenário atual, contudo, pressões altistas estão dando as cartas e são baixas as perspectivas de alteração dessa tendência, no curto prazo. A mediana das projeções coletadas pelo Banco Central entre analistas de mercado e divulgadas no Boletim Focus para a cotação do dólar no fim do ano avançou de R$ 3,75, há quatro semanas, para R$ 3,85, no fim de agosto. No pregão desta segunda-feira, o dólar fechou a R$ 4,18, maior cotação desde setembro do ano passado

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre o Autor

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

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Análises e contextualizações para entender o dia a dia da economia e das políticas econômicas, bem como seus impactos sobre o cotidiano das pessoas, sempre com um olhar independente, social e crítico. Finanças pessoais e outros temas de interesse geral fazem parte do pacote.