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José Paulo Kupfer

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País parado não é (ainda) culpa de Bolsonaro, mas Guedes está devendo

José Paulo Kupfer

05/09/2019 04h00

O ânimo de alguns com uma possível virada da economia, depois de o PIB (Produto Interno Bruto) ter registrado alta de 0,4%, acima das projeções, no segundo trimestre, pode ter começado a esfriar com os primeiros resultados do terceiro trimestre. O recuo de 0,3% na produção industrial em julho foi um sinal de que o avanço entre abril e junho pode ter sido apenas um soluço.

Para o secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Adolfo Sachsida, a partir de setembro a economia mostrará um melhor desempenho. Segundo ele, julho e agosto trarão indicadores mistos, alguns bons e outros não tão bons.

Não há, porém, consenso sobre o comportamento da economia daqui para frente. Segundo projeções de economistas do Banco Itaú, por exemplo, a atividade econômica voltará a recuar no terceiro trimestre.

A "surpresa" do segundo trimestre, em todo caso, não se traduziu em grandes alterações nas estimativas do conjunto dos analistas para o crescimento da economia em 2019. Muitos que já previam alta de 0,8% no PIB do ano mantiveram a projeção e alguns as elevaram para 1%. Na mediana, as previsões encostaram em 0,9%.

Isso significa que as expectativas para o terceiro e o quarto trimestres não são de expansão muito mais acelerada, mesmo com o início, em setembro, da liberação de recursos do FGTS. Para crescer 0,8% em 2019, a média de alta em cada um dos trimestres restantes do ano teria de ficar em 0,4%. Para que o crescimento anual alcance 1%, a expansão a cada trimestre precisaria ser de 0,5%.

São ritmos de crescimento superiores ao padrão observado desde a saída oficial da recessão, em fins de 2016. De lá para cá, a economia avançou em média 0,2% por trimestre (0,4%, mas apenas se for considerada a alta excepcional do setor agrícola, no primeiro trimestre de 2017).

A recuperação econômica, a partir do fim da recessão, tem sido a mais lenta da história. Passados cinco anos, o PIB ainda se encontra 5% abaixo do pico alcançado no primeiro trimestre de 2014, que precedeu ao início do período de recuo da economia, iniciado no trimestre seguinte.

Caso a atividade evolua no mesmo ritmo anual previsto em julho de 2019 pelos analistas consultados no Boletim Focus, a volta aos níveis pré-recessão ocorrerá no terceiro trimestre de 2021, sete anos e meio depois do início da crise. Se o ritmo de crescimento repetisse o efetivamente verificado nos últimos dois anos (1,1%), o retorno ao nível do primeiro trimestre de 2014 só se daria no primeiro trimestre de 2024, dez anos depois.

Mais atrasada ainda se encontra a renda per capita. Desde o fim da recessão, o indicador está 8% abaixo do pico pré-crise e, como a população tem crescido a uma taxa anual de 0,8%, tudo indica que continuará com a mesma distância no encerramento de 2019. Serão, então, três anos consecutivos de perda de renda da população.

Para o respeitado economista e ex-presidente do Banco Central Affonso Celso Pastore, uma das principais referências brasileiras na avaliação da conjuntura econômica, trata-se de uma situação que só pode ser definida como depressão econômica — algo mais profundo e estrutural do que uma recessão. Pastore calcula que, com crescimento médio de 2% ao ano, a partir de 2020, a renda per capita de 2013 só será de novo alcançada 11 anos depois, em 2024.

Economistas se dividem na determinação do diagnóstico dessa situação de estagnação sem precedentes na história econômica brasileira. Um grupo vincula a incapacidade de retomar um ritmo mais acelerado e consistente de crescimento a problemas de insuficiência aguda de demanda. Outro grupo considera que a saída da estagnação, dadas as restrições fiscais existentes e apesar da capacidade produtiva ociosa, deveria vir de ações que estimulem a oferta.

Para os primeiros, mesmo diante da pressão sobre as contas públicas, a saída mais eficaz sugere a adoção de estímulos fiscais que retirem o consumo da estagnação em que está mergulhado. Com isso, seria possível, em prazo mais curto, absorver capacidade de produção ociosa e reduzir o desemprego de mão de obra.

Os que consideram arriscado recorrer a gastos públicos para mover a economia recomendam acelerar privatizações e concessões de serviços públicos, apesar da reconhecida maior demora na concretização dessas medidas. Acreditam que o setor privado, nacional e estrangeiro, se amparado por regras claras e estáveis, teria condições de substituir negócios e serviços tocados pelo governo, encarando o desafio dos investimentos em larga escala, principalmente na infraestrutura, ainda em tempo hábil.

Há um razoável consenso em torno da ideia de que reformas, como a da Previdência e a tributária, são pontos de partida para soluções mais estruturais e duradouras. Diante do quadro de prolongada estagnação econômica, porém, tem crescido a adesão à adoção de medidas de estímulos à demanda, mesmo no caso de economistas de linha mais ortodoxa.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, e sua equipe são críticos das soluções de ativação da demanda e se concentram, de modo até obstinado, na retirada do governo da cena econômica, abrindo espaços para o setor privado. Mas incertezas variadas, com origem tanto internas quanto externas, têm resultado na criação de vazios de política econômica.

Herdeiro de uma recessão de grande porte, o presidente Jair Bolsonaro ainda não pode ser acusado como o culpado pelo ritmo arrastado em que a economia se move. Mas a falta de perspectiva de reação mais firme da atividade econômica já poderia estar sendo enfrentada com medidas mais efetivas por Guedes. Dá a impressão que falta combustível ao "Posto Ipiranga" para fazer o carro da economia sair do atoleiro.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre o Autor

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

Sobre o Blog

Análises e contextualizações para entender o dia a dia da economia e das políticas econômicas, bem como seus impactos sobre o cotidiano das pessoas, sempre com um olhar independente, social e crítico. Finanças pessoais e outros temas de interesse geral fazem parte do pacote.