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José Paulo Kupfer

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Brasil está menos vulnerável, mas choques de petróleo sempre trazem riscos

José Paulo Kupfer

16/09/2019 14h18

O corte abrupto da produção de petróleo na Arábia Saudita, depois dos ataques de drones a instalações da Saudi Aramco, no fim de semana,  deflagrou um movimento de pânico nos mercados internacionais da commodity, na manhã desta segunda-feira (16). Mas a existência de estoques elevados em todo o mundo fez a temperatura baixar rapidamente.

Especialistas em economia do petróleo avaliam que são pequenas as chances de um grave choque na oferta de energia e, em consequência, na economia mundial. A história mostra, contudo, que cortes no fornecimento de petróleo, principalmente aqueles derivados de conflitos geopolíticos, como é o caso agora, acabaram tendo grande influência econômica em âmbito global.

O Brasil é hoje muito menos vulnerável a crises do petróleo do que, por exemplo, nos anos 70 e início dos ano 90 do século passado, quando conflitos no Oriente Médio interromperam a oferta de petróleo e desorganizaram a economia mundial. Graças ao pré-sal, o Brasil não só é hoje autossuficiente como se tornou exportador líquido de petróleo.

O país produz, entre óleo e gás, o equivalente a cerca de 3,6 milhões de barris/dia. O consumo se encontra na faixa de 2,7 milhões de barris/dia. Atualmente, o país exporta 30% do petróleo que produz, mas, por necessidade de combinação de tipos de óleo para o refino de combustíveis, importa 15% do que consome.

A partir de meados de 2017, a balança comercial brasileira de petróleo passou ter superávit, mas continua deficitária quando se trata de derivados de petróleo. O saldo entre as vendas ao exterior e as compras no mercado externo é positivo pouco mais de US$ 750 milhões, enquanto, no caso dos derivados, o saldo é negativo em US$ 1 bilhão.

É difícil capturar, mesmo no curto prazo, o conjunto de benefícios e de custos, para a economia global e para o Brasil, derivado da interrupção forçada e inesperada de 5% da oferta mundial de petróleo. No caso da economia mundial, duas visões, uma mais benigna e outra mais sombria, disputam o tabuleiro.

A visão mais benigna dá ênfase ao quadro atual do mercado de petróleo. Os estoques mundiais estão acima do habitual, e países produtores dispõem de ampla capacidade de produção, podendo aumentar a oferta rapidamente. Alguns produtores, como os Estados Unidos — sobretudo com o avanço do gás de xisto —, Noruega e mesmo o Brasil, têm aumentado sua produção e suas reservas. Ao mesmo tempo, a desaceleração da economia global tende a moderar a demanda de energia.

Esta visão é confrontada por hipóteses mais negativas, mas nada inverossímeis. Sem considerar o tempo que os sauditas levarão para recuperar as instalações afetadas, a vulnerabilidade agora escancarada teria vindo para ficar. Acresce a esse quadro, a perspectiva de uma escalada no conflito entre Estados Unidos e Irã — a quem o presidente americano Donald Trump está atribuindo o patrocínio do ataque às instalações sauditas.

A possibilidade de que se instale uma nova rotina de turbulências, com temores de ataques mais frequentes a instalações petrolíferas do tipo ocorrido no sábado (14) e riscos de novos conflitos geopolíticos, traz um sinal de alerta amarelo mais permanente para o mercado. Aumentos nas cotações de petróleo podem vir a configurar um resultado não desprezível da introdução dessas novas incertezas.

No caso específico do Brasil, as consequências também dependem de movimentos ainda desconhecidos. A reação da Petrobras e de sua política de preços, em relação aos preços dos derivados que entrega nas refinarias, por exemplo, é um dos mais relevantes para que se possa avaliar os desdobramentos do acontecido na Arábia Saudita. O tamanho e a duração dos repasses aos preços internos dos combustíveis compõem informação chave para essa avaliação.

A provável alta dos preços nas bombas tem potencial para afetar, negativamente, os custos de produção no conjunto da economia. Mas seus efeitos mais duradouros, principalmente sobre a inflação, são incertos. Dependem, por sua vez, de quanto será possível repassar a elevação de custos aos preços, num momento em que a demanda, em baixa histórica, apresenta capacidade limitada de absorção de repasses.

Medir a quente o saldo do balanço de ganhos e perdas com altas mais permanentes das cotações do petróleo é tarefa espinhosa. A Petrobras, por exemplo, pode ser uma ganhadora. Produtora e exportadora da mercadoria mais escassa neste momento, a empresa viu suas ações subirem forte nas bolsa brasileira e em Nova York, logo no início dos primeiros pregões depois do ataque na Arábia Saudita. O governo também poderá ser beneficiado com o aumento do interesse — e dos valores — do leilão de excedentes da cessão onerosa de petróleo, uma vez que a Petrobrás produz em áreas geopolíticas menos instáveis.

De outro lado, porém, são óbvias as perspectivas de reorientação nos mercados globais de moedas, com tendência de desvalorização da taxa de câmbio nas economias emergentes, como o Brasil. Essa expectativa se sustenta no impulso de "fuga para a qualidade" dos investidores, que procuram a segurança do mercado americano de ativos e o dólar em momentos de turbulência.

O real costuma ser bastante atingido por esses movimentos, e a pressão inflacionária que uma maior desvalorização da taxa de câmbio possa trazer será testada pela capacidade de repasse aos preços. Essa capacidade anda abalada, no momento, pelo baixo crescimento da economia e pela fraqueza da demanda. Quanto a tudo isso, será particularmente interessante observar o comportamento da diretoria do Banco Central, que se reúne nesta semana para decidir sobre a taxa básica de juros dos próximos 45 dias.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre o Autor

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

Sobre o Blog

Análises e contextualizações para entender o dia a dia da economia e das políticas econômicas, bem como seus impactos sobre o cotidiano das pessoas, sempre com um olhar independente, social e crítico. Finanças pessoais e outros temas de interesse geral fazem parte do pacote.