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José Paulo Kupfer

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Recessão se aprofunda na Argentina e Brasil não sai ileso

José Paulo Kupfer

20/09/2019 15h11

Com recuo de 0,3%, no segundo trimestre do ano, a Argentina completou seis trimestres consecutivos sem crescimento. A crise voltou em 2018, depois de um soluço, nos primeiros anos do governo liberal de Maurício Macri. O quadro econômico ainda deve piorar até o fim do ano.

Não é uma boa notícia para a economia brasileira. Os riscos de contaminação da economia brasileira pela crise argentina são maiores do que parecem à primeira vista. A Argentina é o terceiro parceiro comercial do Brasil, bem atrás da China e dos Estados Unidos. Mas é para os argentinos que as empresas brasileiras exportam mais produtos industrializados.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, declarou, em meados de agosto, que o "Brasil não precisa da Argentina para crescer". As economistas Luana Miranda e Mayara Santiago, pesquisadoras do Ibre-FGV (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas), no entanto, encontraram forte conexão entre as duas economias.

Luana Miranda e Mayara Santiago calcularam que, em 2018, a crise argentina tirou 0,2 ponto porcentual do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro e que, em 2019, a recessão no país vizinho pode reduzir o crescimento no Brasil em 0,5 ponto porcentual. Quando se observa que o crescimento da economia brasileira tem ficado no entorno de apenas 1% ao ano, conclui-se que a fatia perdida com a crise argentina é relevante.

Não são apenas as exportações de veículos que pesam nas relações entre as duas economias. Produtos automotivos representam mais de 30% da pauta exportadora brasileira para a Argentina, mas o Brasil também coloca no país vizinho insumos industriais e uma grande variedade de bens intermediários.

A corrente de comércio entre o Brasil e a Argentina somou, em 2018, US$ 26 bilhões. Esse volume representa cerca de um quarto do fluxo comercial brasileiro com a China, maior parceiro do Brasil, e pouco menos da metade do que o país negociou com os Estados Unidos, o segundo maior parceiro comercial brasileiro.

Nos últimos 12 meses, as exportações brasileiras para a Argentina caíram 40%. De janeiro a agosto deste ano, o fluxo de comércio entre os dois países se limitou a US$ 14 bilhões.

Os números da economia argentina no segundo trimestre não capturaram os choques provocados pelas eleições primárias do mês passado, que praticamente indicaram o retorno de peronistas ao comando do governo, no pleito marcado para outubro. Ainda assim foram bem negativos, com contração de 18% nos investimentos e de 8% no consumo privado, na comparação com o trimestre anterior.

As projeções de momento apontam recuo de 2% na economia argentina em 2019 e 1%, em 2020. Não é um cenário positivo para o Brasil.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre o Autor

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

Sobre o Blog

Análises e contextualizações para entender o dia a dia da economia e das políticas econômicas, bem como seus impactos sobre o cotidiano das pessoas, sempre com um olhar independente, social e crítico. Finanças pessoais e outros temas de interesse geral fazem parte do pacote.