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José Paulo Kupfer

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Trocar dívida cara por mais barata é a onda do momento para aliviar contas

José Paulo Kupfer

14/10/2019 17h38

É mais do que sabido, no Brasil, que existem pedras no caminho da relação entre a redução da taxa básica de juros (taxa Selic) e a queda no custo dos empréstimos pagos por pessoas e empresas. Se a Selic está em uma marcha de baixa histórica, as taxas cobradas de quem contrata financiamentos recuam muito mais devagar, quando recuam, e ainda são bastante elevadas — exorbitantes, em certas modalidades, como o cartão de crédito e o cheque especial.

Mesmo com essas pedras, porém, os juros básicos muito mais baixos acabam ajudando na redução das taxas nos empréstimos para o público. É esse movimento que está ganhando escala no mercado brasileiro. Tem aumentado o volume de empresas e, principalmente, de pessoas em busca de crédito.

De acordo com levantamentos da empresa de informações financeiras Serasa Experian, obtidos pelo jornal Estado de S. Paulo, a procura por crédito aumentou 10,3%, entre janeiro e agosto deste ano, em comparação com o mesmo período de 2018. Trata-se do maior aumento na demanda por financiamentos desde 2010, quando, de janeiro a agosto, a alta foi de 16,4%, numa economia que cresceria, naquele ano, um recorde de 7,5%.

Só que esse movimento, em geral, não está se dirigindo, preferencialmente, aos guichês de novos financiamentos e novas compras no crediário. Os balcões de renegociação de dívidas e de troca de empréstimos por outros com custos menores são os que estão sendo mais procurados. É, de fato, um caminho racional.

Dados do Banco Central mostram que, de janeiro a agosto, o maior crescimento da procura por empréstimos, no segmento livre do mercado de crédito, visava à renegociação de dívidas. Provavelmente com o mesmo intuito, a vice-liderança do ranking de aumento da demanda por financiamentos, de janeiro a agosto, ficou com os empréstimos consignados. Por oferecem como garantia recursos depositados na conta bancária do tomador do crédito — salários e aposentadorias, na maior parte dos casos — os consignados cobram juros menores.

Também ocorreu, no período, aumento na procura por financiamentos para a compra de bens de consumo durável, sobretudo veículos, cujas taxas são relativamente mais baixas, em razão da garantia de retomada do bem, em caso de inadimplência. Mas o ritmo de alta nesse segmento foi metade do registrado na procura por substituição de empréstimos mais caros por outros mais baratos.

Não há ainda razão para acreditar que o movimento de alta na procura de crédito se deva a uma percepção de melhora das condições gerais da economia e, em especial, do mercado de trabalho. Os sinais de recuperação da atividade econômica, como mostra o IBC-Br (Índice de Atividade Econômica), calculado pelo Banco Central, em agosto, divulgado nesta segunda-feira (14), continuam bastante lentos. A situação permite supor que a taxa de informalidade, no mercado de trabalho, demorará para recuar do atual nível recorde.

Numa economia com pouca tração e alta dose de informalidade, a expansão do crédito enfrenta dificuldades tanto na ponta da procura quanto na da oferta. Incertezas em relação à ocupação e remuneração futuras contribuem para restringir a demanda. O mesmo problema acrescido da falta de garantias, elevando o risco de inadimplência, limitam a oferta, no lado dos bancos.

A inadimplência se encontra em níveis historicamente elevados, apresentando, inclusive, ligeiro aumento nos últimos meses. A Serasa calcula que 63 milhões de brasileiros estejam com dívidas em atraso, contingente que representa cerca de dois terços da população ocupada.

Não só a taxa básica mais baixa, de todo modo, tem ajudado na melhoria das condições para buscar créditos. A inflação, igualmente em níveis baixos recordes, alivia o orçamento familiar, podendo, em teoria, abrir espaço para a contratação de crediário com o pagamento de prestações mensais.

Tem havido, de fato, de acordo com especialistas, uma tendência de alargamento dos prazos dos empréstimos, o que se traduz em prestações mais baixas. Essa manobra, que poderia estimular a contratação de crediários, contudo, é limitada pela redução da remuneração verificada no mercado de trabalho. 

Trocar dívida mais cara por outra mais barata e mais longa, seja como for, aproveitando a redução dos juros básicos, é uma boa ideia para reduzir inadimplência e obter alguma folga no bolso para completar o orçamento.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre o Autor

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

Sobre o Blog

Análises e contextualizações para entender o dia a dia da economia e das políticas econômicas, bem como seus impactos sobre o cotidiano das pessoas, sempre com um olhar independente, social e crítico. Finanças pessoais e outros temas de interesse geral fazem parte do pacote.

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