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José Paulo Kupfer

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Nobel de Economia premia método que busca eficácia no combate à pobreza

José Paulo Kupfer

15/10/2019 07h52

A mensagem transmitida pelo Prêmio Nobel de Economia de 2019 não poderia ser mais clara. É preciso combater a pobreza e esse combate deve ser feito com políticas públicas eficazes. A eficácia dessas políticas deve ser devidamente testada e comprovada.

É a estudos empíricos, com base em metodologia científica, que os três ganhadores deste ano se dedicam. Os premiados foram os americanos Michael Kremer, 55 anos, de Harvard, Abhijit Banerjee, 58 anos, nascido na Índia, e Esther Duflo, nascida na França, que completará 47 anos no dia 25, os dois últimos do MIT (Massachusetts Institute of Technology). Duflo é a mais jovem ganhadora do Nobel de Economia e a segunda mulher a receber a honraria, depois da americana Elinor Ostrom, premiada em 2009 e falecida em 2012, aos 78 anos.

O Banco Central da Suécia, que concede o prêmio desde 1969, destacou que a escolha se deveu a pesquisas desenvolvidas em áreas pobres, principalmente em países da África e da Índia. Os resultados obtidos melhoraram as condições de saúde, o desempenho escolar e o bem-estar geral das comunidades envolvidas.

Kremer, Banerjee e Duflo se tornaram referências na aplicação e difusão, na área de economia, de experimentos aleatórios controlados (RCT, na sigla em inglês para randomized controlled trial). O método tem sido amplamente replicado em todo o mundo, dando nova configuração aos estudos de economia do desenvolvimento. 

Mais comuns em pesquisa médica, sobretudo no teste de novas drogas, e em psicologia, esse método compara grupos homogêneos, um dos quais sofre a intervenção cujo impacto se quer medir, enquanto o outro, escolhido aleatoriamente, não sofre intervenção ou apenas recebe placebos. A comparação entre as alterações ocorridas nos dois grupos depois do experimento permite estabelecer o nível de eficácia dos resultados alcançados no grupo experimental.

Ao reunir observação de campo com percepção comportamental e ferramentas matemáticas, esses trabalhos fazem parte do que há de mais atual na pesquisa econômica. Embora já fosse aplicado em economia desde os anos 60, o RCT voltou a ganhar espaço a partir de dos anos 90, justamente com os trabalhos de Kremer.

O trio de professores é responsável por uma série de experiências que contestaram antigas certezas em políticas públicas para regiões pobres. Um dos experimentos mais famosos foi que concluiu que, em escolas da área rural do Quênia, a melhora dos níveis de aprendizado não dependia nem da oferta de mais livros, nem de melhor alimentação. O impacto mais importante derivava da contratação de professores auxiliares para acompanhar os alunos mais de perto em suas necessidades pedagógicas.

Banerjee e Duflo, que são casados, desenvolveram pesquisas de campo na India. Testaram, por exemplo, a eficácia do microcrédito, tipo de política de combate à pobreza que rendeu um Prêmio Nobel da Paz a seu difusor pioneiro, o economista bengalês Muhammad Yunus. O resultado encontrado, até hoje polêmico, é o de que, pelo menos no desenho de ação em grupos de beneficiados, nos quais todos arcam com a eventual inadimplência de seus membros no pagamento dos pequenos financiamentos recebidos, o programa não funciona para reduzir a pobreza.

O campo de pesquisa desenvolvido pelo trio de laureados em 2019 está em ascensão na ciência econômica e formou uma rede internacional de seguidores. Sem dúvida, essa difusão propiciou um aumento no conhecimento sobre a eficácia de políticas públicas no combate à pobreza.

Mas há também muitas críticas ao método, pela sua excessiva focalização  na busca de evidências da eficácia das políticas testadas. As mais repetidas indagam até que ponto o que pode valer numa dada situação específica e num lugar determinado valeria para outros contextos e regiões.

Dar caráter universal às evidências encontradas é um dos problemas da aplicação do RCT em economia. Um outro Nobel de Economia, o escocês-americano Angus Deaton, 74 anos, premiado em 2015 também por estudos sobre consumo, pobreza e bem-estar, é um dos críticos mais proeminentes da aplicação em economia dos ensaios controlados e das evidências restritas encontradas nos experimentos.

Em artigo de 2016, Deaton pergunta se o que funciona na Índia funcionaria no Brasil e se o que pode valer para cem pessoas valeria para dez milhões. Para ele e uma legião de críticos, quando é preciso transportar as evidências de uma pesquisa específica para situações mais amplas, as inferências que necessariamente terão de ser feitas são tão boas quanto os resultados obtidos pela aplicação das teorias gerais das quais essas inferências derivam.

    

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre o Autor

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

Sobre o Blog

Análises e contextualizações para entender o dia a dia da economia e das políticas econômicas, bem como seus impactos sobre o cotidiano das pessoas, sempre com um olhar independente, social e crítico. Finanças pessoais e outros temas de interesse geral fazem parte do pacote.

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