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José Paulo Kupfer

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Guerras comerciais, geopolíticas e tecnológicas derrubam a economia global

José Paulo Kupfer

16/10/2019 04h00

A atualização das projeções para o crescimento da economia mundial, em 2019 e nos próximos anos, divulgadas nesta terça-feira (15) pelo FMI (Fundo Monetário Internacional), consolida uma percepção generalizada de que o momento é de desaceleração na atividade econômica ao redor do mundo. São ligeiros ajustes para baixo, em relação às previsões de julho, mas representam um retrocesso expressivo, na comparação com as altas registradas em 2018.

Não sobrou para quase nenhuma economia, entre as mais ricas e as emergentes, desempenhar o papel de puxar o PIB (Produto Interno Bruto) mundial para cima. A retração, de modo geral, não é pequena. Mais da metade dos países, desconsiderando a paupérrima África subsaariana, defrontam-se com estimativas de renda per capita mais baixas do que as médias dos últimos 25 anos.

A principal razão para esta esperada nova etapa de baixo crescimento global tem origem nas tensões comerciais envolvendo grandes economias, cujos efeitos negativos se disseminam pelo resto do mundo. Nos cálculos do FMI, o comércio internacional está em processo de intenso esfriamento, devendo avançar apenas 1,1%, em 2019 (a previsão anterior, de julho, era de um crescimento de 2,5%). Para 2020, o fluxo comercial global recuperaria ritmo, registrando avanço de 3,2%, mas ainda assim abaixo da expansão de 3,7%, estimada em julho.

Essas tensões refletem um conjunto de guerras em curso no mundo. Estados Unidos e China, as duas maiores economias, estão envolvidos em duas delas. Uma é a disputa comercial, que se arrasta, com ações e reações provocativas, intercaladas por tréguas parciais. O restante das economias assiste aos embates do presidente americano Donald Trump com os chineses e sofre os efeitos das incertezas lançadas sobre os fluxos comerciais e as cadeias de produção globais.

EUA e China também protagonizam uma segunda guerra, menos estridente, mas não menos importante — e tensa –, em torno do domínio tecnológico das aplicações de inteligência artificial, robótica e redes de comunicação 5G. Essa disputa tecnológica, que envolve uma revolução nos mercados consumidores, tende a se acirrar à medida em que os chineses, representados pela Huawei e outras gigantes de tecnologia, consigam manter a liderança que hoje desfrutam nessa área crítica.

Uma terceira guerra, ainda protagonizada pelos Estados Unidos, esta de características geopolíticas, se desenrola no setor energético. Trump tem forçado embargos ao Irã, antagonista direto nesse confronto, mas a verdade é que o estado de crise e tensão no Oriente Médio se alastra pela região. Os ataques iemenistas a instalações petrolíferas na Arábia Saudita elevaram a temperatura regional. O mesmo tem ocorrido com as incursões turcas e russas na Síria, depois que Trump abandonou seus aliados curdos. Existem riscos de choques nos preços do petróleo, o que, nas atuais circunstâncias, pode ser o rastilho para um período de estagflação.

Em paralelo,  corre o tempo para o Brexit, cujo desfecho, qualquer que seja, não teria a capacidade de desencadear uma aceleração da crise mundial, mas afetaria a Europa, já combalida, com possíveis repercussões fora da região. Não se pode esquecer que a Alemanha, maior economia europeia, já está em recessão, atingida exatamente pela retração do comércio internacional.

Esses confrontos, com exceção dos conflitos no Oriente Médio, com desenvolvimentos imprevisíveis, não parecem conduzir a situações de rompimento, pelo menos iminentes. Mas, ao mesmo tempo, também não permitem imaginar soluções negociadas definitivas a curto prazo. O resultado dos impasses é a geração de incertezas, que congelam investimentos e retraem o consumo, mantendo a atividade econômica, na melhor das hipóteses, em ritmo de espera.

Subsiste, porém, o perigo de que a desaceleração possa vir a ser mais acentuada. O espaço para ações compensatórias da parte dos bancos centrais está se fechando, com a continuidade dos cortes nas taxas de juros de referência, em muitos casos já no terreno negativo. É esse quadro que explica a retomada de injeções de dinheiro nos mercados, com a recompra de títulos públicos pelos bancos centrais.

Para os países emergentes, a situação não é nada confortável. O Brasil, mesmo sendo a economia mais fechada entre os grandes emergentes, enfrentaria dificuldades ainda maiores para retomar o crescimento,  caso se consolide uma nova crise econômica global. Na revisão desta quinta-feira, o FMI projetou para o Brasil crescimento econômico de 0,9%, em 2019, e 2%, em 2020. São previsões alinhadas com as que circulam entre os analistas brasileiros e que, se confirmadas, manterão a economia abaixo do pico anterior ao do início da recessão em 2014 por no mínimo sete longos anos.

 

 

 

 

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre o Autor

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

Sobre o Blog

Análises e contextualizações para entender o dia a dia da economia e das políticas econômicas, bem como seus impactos sobre o cotidiano das pessoas, sempre com um olhar independente, social e crítico. Finanças pessoais e outros temas de interesse geral fazem parte do pacote.

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