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Falta de emprego faz quase 60% dos trabalhadores terem de "se virar nos 30"

José Paulo Kupfer

31/10/2019 17h13

Ao mesmo tempo em que, com alguma defasagem no tempo, o retrato do mercado de trabalho é um indicador do estado da economia, esse mesmo retrato também serve como uma espécie de bola de cristal do comportamento futuro da atividade econômica.

Com base nos números da PNAD Contínua (Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios), no terceiro trimestre de 2019, divulgados nesta quinta-feira (31), pode-se dizer que a recuperação da economia continua muito lenta. E que, no futuro próximo, necessitará de empurrões na demanda para andar mais rápido.

A taxa de desemprego, que atingiu um pico no primeiro trimestre de 2019, registrou recuo, mês a mês, em bases trimestrais, desde então. Caiu de 12,7% da força de trabalho, no período janeiro-março, para 11,8%, entre julho e setembro. Mas, nesse meio tempo, a absorção de mão de obra no mercado de trabalho perdeu ritmo.

Depois de descer a 12% no segundo trimestre, a taxa de desemprego empacou. Nos trimestres móveis encerrados em julho, agosto e setembro, manteve-se nesses 11,8%. A taxa revela a existência hoje de um exército de 12,5 milhões de trabalhadores desempregados.

Além do desemprego alto e estável, o subemprego e a informalidade são características importantes do atual mercado de trabalho. Na PNAD-C de setembro, o número de trabalhadores por conta própria ou que só conseguiam colocação em tempo parcial continuou a crescer e a registrar recordes.

Um exemplo da dificuldade atual de absorção de mão de obra pode ser encontrado na construção civil. Na esteira da recuperação do crédito imobiliário, a partir da redução das taxas básicas de juros, o setor atraiu 254 mil novos trabalhadores apenas no trimestre encerrado em setembro. Mas, segundo o próprio IBGE, a demanda no setor ainda é por mão de obra informal e de baixa qualificação, capaz somente de executar pequenas reformas e reparos. 

Sem contar desempregados e desalentados – neste grupo estão quase 5 milhões de pessoas -, subutilizados (27,5 milhões), informais no setor privado (11,8 milhões) e trabalhadores por conta própria (24,4 milhões), somam 64 milhões de brasileiros se "virando nos 30". Pouco menos de 60% da força de trabalho está alocado em ocupações com algum grau maior ou menor de precariedade.

Esse dado é um indicador de que o consumo tenderia a continuar fraco, dificultando uma recuperação menos frágil da economia. O consumo das famílias responde por 60% do PIB (Produto Interno Bruto) e quem vive de trabalho precário ou intermitente não tem condições de ser um consumidor pleno.

Insegurança e instabilidade no trabalho assim como dificuldades de acesso ao crédito, restringem o potencial de compra desse imenso contingente. Sem falar, obviamente, na remuneração mais baixa. Pesquisas recentes mostram que o rendimento médio mensal dos subempregados não chega a um salário mínimo. No conjunto do mercado de trabalho, dominado por ocupações mais precárias, o rendimento médio real habitual se mantém desde 2012 em torno de R$ 2.300.

Não é por coincidência que, contrariando o discurso oficial do ministro Paulo Guedes, já está contratada, para os próximos meses, uma série de empurrões ao consumo. A liberação do FGTS e do PIS/Pasep, inclusive com antecipação para 2019 de parcelas previstas para 2020, é só o mais direto desses empurrões.

Um tipo de Refis envergonhado, facilitando renegociação a perder de vista de dívidas com o governo, inserido na Medida Provisória do Contribuinte Legal, deve atuar na mesma direção do estímulo ao consumo. O mesmo para o 13º salário do Bolsa Família, o dinheiro grosso previsto com o leilão da cessão onerosa de petróleo, a ser distribuído entre o governo federal, estados e municípios, e os descontingenciamentos de recursos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre o Autor

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

Sobre o Blog

Análises e contextualizações para entender o dia a dia da economia e das políticas econômicas, bem como seus impactos sobre o cotidiano das pessoas, sempre com um olhar independente, social e crítico. Finanças pessoais e outros temas de interesse geral fazem parte do pacote.

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