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Desemprego cai a conta-gotas, mas há menos desalentados e subutilizados

José Paulo Kupfer

29/11/2019 16h33

É com a taxa de desemprego, ressalvadas as defasagens no tempo, que se tira a prova dos nove do comportamento econômico, das tendências de uso da capacidade instalada e, mais do que qualquer outra coisa, da esperança ou do pessimismo de melhores dias à frente. Além dos impactos sobre o bolso dos cidadãos, a taxa de desemprego produz efeito sobre ânimo geral da sociedade.

Ocorre que a taxa de desemprego, com toda a sua relevância, é manhosa. Não deixa transparecer à primeira vista o que realmente captura do estado da economia. Para isso, é preciso investigar suas entranhas e prestar atenção em muitos detalhes.

Isso é ainda mais verdadeiro quando a taxa de desemprego se refere ao que se passa no mercado de trabalho no período de um mês. Nesse curto intervalo de tempo, a taxa de desemprego é volátil — a consistência das informações que transmite carece de mais comprovações. Assim, analisada sem filtros, costuma distorcer constatações e debilitar conclusões.

A olho nu, os resultados da PNAD Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) de outubro, com dados acumulados de agosto, setembro e outubro, levam a concluir que a economia se mantém em marcha, mas o ritmo é muito lento e ainda não dá sinais de aceleração. Por isso mesmo, a desocupação cai a conta-gotas e a absorção de mão de obra ocorre basicamente no setor informal.

Tanto a taxa de desocupação quanto o número de desempregados ficou estatisticamente estável, tanto em relação ao trimestre anterior (maio-junho-julho) quanto ao mesmo trimestre de 2018, variando de 11,8% da força de trabalho para 11,6%. O volume de desempregados, nas mesma bases de comparação, também ficou estável, em 12,4 milhões de pessoas. Como nas medições anteriores, a população ocupada bateu recordes, da mesma maneira que o número de trabalhadores na informalidade.

Quando, porém, se observam os dados da PNAD Contínua mais de perto, depois de ajustes sazonais, que retiram das informações os efeitos típicos do período em análise, aparecem alguns sinais que apontam em outras direções. A redução do número de trabalhadores desalentados (menos 217 mil no trimestre) e de subutilizados (menos 972 mil no trimestre), ainda que em proporção baixa, são alguns desses sinais. Eles indicam que aqueles que estão trabalhando, trabalham agora mais horas semanais.

Esse é um pequeno alento no rumo da normalização do mercado. O aumento de número de horas trabalhadas é um primeiro passo na abertura de mais vagas de trabalho e, na sequência, de vagas formais. Isso desde que a economia não volte a tropeçar e interrompa o ritmo de recuperação mais uma vez.

Em relatório a clientes, economistas da grande e respeitada MCM Consultoria constataram que o ligeiro avanço registrado na população ocupada se deveu, em outubro, à contratação de trabalhadores com carteira assinada. Em combinação com o aumento na força de trabalho, uma vez que mais pessoas, no mês passado, voltaram a procurar ocupação, esse pequeno passo à frente do contingente de trabalhadores formais, a percentagem de informais no conjunto da força de trabalho recuou para 41,2%. A queda nesse item vem ocorrendo devagar desde o trimestre encerrado em agosto, quando a parcela de informais havia chegado ao recorde de 41,4%.

Mais de perto também as informações sobre os rendimentos do trabalho dão contornos mais nítidos ao que se enxerga nos dados agregados. O rendimento médio real subiu 0,5%, em relação ao trimestre móvel anterior, e 0,6%, na comparação com o mesmo trimestre de 2018. Trata-se de um sinal positivo de algum aquecimento no mercado de trabalho. A ressalva é que essa alta tem sido puxada por empregadores, trabalhadores por conta própria e funcionários públicos. Entre os empregados com carteira assinada, o movimento, já prolongado, continua sendo de ligeira baixa interanual.

Para resumir, o mercado de trabalho se mexe numa direção positiva. Mas é preciso lentes de aumento para perceber os movimentos, tão lentos eles ainda são.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre o Autor

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

Sobre o Blog

Análises e contextualizações para entender o dia a dia da economia e das políticas econômicas, bem como seus impactos sobre o cotidiano das pessoas, sempre com um olhar independente, social e crítico. Finanças pessoais e outros temas de interesse geral fazem parte do pacote.

Blog do José Paulo Kupfer