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Retomada ganha força, mas economia ainda está longe do nível pré-crise

José Paulo Kupfer

03/12/2019 13h11

Num Brasil polarizado, o resultado da variação do PIB (Produto Interno Bruto), no terceiro trimestre de 2019, se presta a interpretações discrepantes. Com base nos números divulgados, é possível tanto concluir que a retomada da atividade está ganhando força quanto considerar que recuperação continua atipicamente lenta e a economia ainda se encontra muito abaixo do pico observado imediatamente antes do início da recessão, em 2014.

De todo modo, a alta da produção no período julho-setembro foi suficiente para deflagrar revisões positivas para o comportamento da economia em 2019 e 2020. Agora, as projeções dos analistas apontam crescimento do PIB de 1,2% a 1,3%, em 2019, e de 2% a 2,5%, em 2020.

A expansão da economia no terceiro trimestre foi puxada pela expansão do consumo das famílias e dos investimentos. Retrações nos gastos do governo e no setor externo impediram avanço mais vigoroso do PIB no período.

Como destacou em nota a SPE (Secretaria de Política Econômica), do Ministério da Economia, o "carry over" da expansão do PIB para 2019 chegou a 1%. Isso significa que, se a economia ficar no zero a zero no quarto trimestre, o PIB do ano já garantiu uma alta de 1%.

As projeções do crescimento acima desse 1% em 2019 derivam das estimativas de uma alta em torno de 0,7%, no intervalo entre outubro e dezembro. Caso essa previsão se confirme, o carregamento estatístico para o PIB de 2020 também será de 1%. Se a economia progredir numa taxa de 0,6% a cada trimestre do ano que vem, o crescimento do PIB no ano chegaria a 2,5%.

Mesmo com a expansão do terceiro trimestre deste ano, porém, a atividade econômica mostra avanço lento. Revisões promovidas pelo IBGE nos meses de novembro, indicam que o PIB de 2017 e de 2018 cresceu 1,3% em cada ano – e não 1,1% como antes registrado. Caso o PIB de 2019 repita essa variação, o ritmo de crescimento permanecerá igual ao dos dois anos anteriores.

Mais do que isso, os resultados não deixam margem a dúvidas de que a recuperação continua sendo a mais lenta da história conhecida. Com o avanço do terceiro trimestre, a atividade ainda roda em nível 3,6% inferior ao do pico anterior à recessão. 

O economista Gilberto Borça Jr., especialista em conjuntura econômica, lembra que, na média das últimas nove recessões vividas pela economia brasileira, depois de 22 trimestres, o PIB já era mais de 10% superior ao pico anterior à recessão. "A característica da recuperação atual é a sua atípica lentidão", constata ele. 

Cálculos do economista indicam que, se mantiver o ritmo de recuperação médio dos trimestres pós-crise, o nível existente de atividade existente na época da Copa do Mundo do Brasil, em meados de 2014, só será alcançado na Copa do Qatar, em 2022. Se crescer mais rápido, 2%  a 2,5% em 2020 e mantiver o ritmo, a recuperação será completada em meados de 2021.

Para Borça Jr., o elemento chave para explicar essa situação é a taxa de investimento. "Embora venha se recuperando nos últimos trimestres e tenha crescido 2% no terceiro trimestre sobre o segundo, o investimento ainda se encontra 23% abaixo do nível em que estava do início de 2014, com a construção civil ainda 30% abaixo do pico anterior", diz ele.

A taxa de investimento tem sido impulsionada pela construção civil e a produção de material de transporte, principalmente caminhões. A construção, que responde por cerca metade da formação bruta de capital fixo, cujo volume, em comparação com o PIB, determina a taxa de investimento, tem sido beneficiada por melhores condições de crédito. Mas ainda está 30% abaixo do nível pré-recessão.

Caminhões têm sido o destaque na parte dos investimentos representado por máquinas e equipamentos, que responde por 30% da formação bruta de capital fixo. A produção de caminhões cresceu 30% a cada um dos últimos dois anos, devendo avançar mais 10% em 2019. A força do setor agropecuário explica esse desempenho.

No terceiro trimestre, a taxa de investimento evoluiu para 16,3% do PIB, mas a preços constantes de 2018, no acumulado dos últimos quatro trimestres, ainda está em 15,5% do PIB. É um nível considerado insuficiente para permitir projeções de crescimento mais vigoroso e sustentado.

Sobre o Autor

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

Sobre o Blog

Análises e contextualizações para entender o dia a dia da economia e das políticas econômicas, bem como seus impactos sobre o cotidiano das pessoas, sempre com um olhar independente, social e crítico. Finanças pessoais e outros temas de interesse geral fazem parte do pacote.

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