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Boicote geral à carne não resolve; “boicote" individual pode reduzir gastos

José Paulo Kupfer

06/12/2019 04h00

O mercado consumidor brasileiro vive um choque de oferta com o corte abrupto do suprimento de carne bovina. Depois da redução do fornecimento do produto, os preços dispararam e assustaram os consumidores. Certos tipos de carnes chegaram a dobrar de preço nos últimos dias. Aumentos de 50% foram generalizados. Foi assim que ganhou corpo a ideia de um boicote aos açougues e supermercados, como forma de forçar uma baixa dos preços.

Mas nem que todos os brasileiros decidissem ao mesmo tempo deixar de comprar carne os preços recuariam. O alvo é amplo demais e geograficamente espalhado demais para que um efeito generalizado pudesse ser sentido. Só que poderia, isso sim, provocar um desabastecimento. O resultado final da empreitada seria o pior dos mundos: preços altos e falta do produto.

A razão para que um boicote geral seja inútil é das mais simples. O choque de oferta em curso não se deve a algum tipo de escassez na produção ou de retenção da produção para forçar altas de preços.

O que está provocando escassez de oferta é o desvio de parte crescente da produção para o mercado externo, principalmente para a China. Por isso, não adianta pressionar a etapa final da cadeia de produção — os varejistas do mercado interno. A escassez começa num ponto muito anterior da produção. Nos frigoríficos. Dos frigoríficos, a carne vai diretamente para exportação.

Às voltas, desde o ano passado, com os efeitos devastadores da febre suína  sobre sua produção, a China abriu as comportas para importações. Mas o consumo chinês de carne suína é de tal volume que não há produção global capaz de suprir a demanda doméstica.

A solução natural para manter o consumo chinês de proteínas animais foi incrementar as compras de carne bovina e aves nos mercados globais. Produtores  de bovinos dos Estados Unidos, Brasil e Austrália, os maiores do mundo, encontraram-se, de repente, diante de uma oportunidade de ouro.

Para os produtores e exportadores brasileiros de carnes, o quadro já favorável foi potencializado pela alta da taxa de câmbio. Com a subida da cotação do dólar ante o real, a corrente de exportação ficou ainda mais atraente. Não demorou para que o fluxo externo intensificado começasse a promover distorções de grande monta no mercado interno de carnes em geral, afetando também os preços de suínos e aves.

Especialistas em acompanhamento de preços, como o economista Fábio Romão, da consultoria LCA, observa que esta era uma situação esperada desde que se conheceu, já no ano passado, a extensão do problema da febre suína na China. A recente alta do dólar pode ter sido o fator que antecipou a subida dos preços para os meses finais de 2019, mas era inevitável que viesse a ocorrer em 2020. "O problema continuará pelo menos até meados do ano que vem", diz Romão.

A pressão sazonal de demanda por carnes, no fim de ano, abre um espaço, se bem que não muito amplo, para que os varejistas consigam administrar suas margens deprimidas de comercialização, promovendo aumentos graduais de preços. De todo modo, a normalização do mercado interno, como acredita Fábio Romão, não será nada rápida.

Essa normalização depende de dois fatores que não devem ocorrer em prazo curto: o primeiro é uma queda forte na cotação do dólar e o outro é a regularização da produção de carne suína na China. O ciclo de produção de suínos está entre o de aves, mais curto, e o de bovinos, mais longo. Repor toda a imensa produção sacrificada com a febre suína não será um processo rápido. Não há também expectativa de queda do dólar abaixo de R$ 3, que tornaria a exportação menos atraente. 

Diante desse cenário, a saída individual mais eficaz é promover uma mudança de hábitos alimentares, ainda que temporária. Substituir o consumo de proteínas animais, principalmente de carne bovina, enquanto os preços estiverem proibitivos e a oferta escassa, por proteínas vegetais.

Embora de grande relevância na dieta alimentar, o consumo de proteínas animais é relativamente fácil de substituir ou, pelo menos reduzir. Exatamente por essa característica, carne bovina, suínos, aves e pescados, no jargão dos economistas, são bens bastante elásticos a preços e renda.

São produtos diferentes, por exemplo, do sal, que é o alimento por definição inelástico a preço e renda. Não se usa menos (ou mais) sal quando os preços do sal sobem (ou caem), ou a renda do consumidor cai (ou sobe).

Motivações ambientais e comportamentais têm determinado uma tendência de redução gradativa no consumo de carnes no Brasil, com exceção da carne suína. Essa tendência se apresenta com nitidez, nos últimos dez anos,  quando se compara a POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares) de 2008 com a de 2017-2018, recentemente divulgada.

Na POF urbana, considerando apenas o item alimentação, as despesas com carne bovina caíram de 6,9%, em 2008, para 6,2%, em 2017-18. No caso das aves, a queda foi menor, passando de 3,55% para 3,46%. Já quanto à carne suína, as despesas aumentaram de 0,66% do grupo alimentação para 1,05%, nesses dez anos.

O consumo de carnes, sobretudo de carne bovina, se mantém relativamente alto, quando se avalia seu peso nos índices de preços. No IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), calculado pelo IBGE, e que serve de baliza para o sistema de metas de inflação, carnes registram peso de 2,64% no total do índice, enquanto carne bovina entra com 2,41%. Considerando apenas o grupo alimentação, carnes em geral pesam 10,75% e a carne bovina, 9,83%.

Se um boicote coletivo não terá o poder de reduzir o preço da carne, contribuindo no fim do processo apenas para tirar o produto do mercado, um "boicote" individual temporário, sob a forma de substituição do produto na dieta alimentar familiar, poderá ser eficaz para reduzir despesas no orçamento doméstico.

Uma ideia é relacionar receitas com substitutos de carnes, montando cardápios para driblar o hábito de consumi-las. As carnes fornecem outros elementos essenciais, além de proteínas, mas substituí-las por proteínas vegetais, encontráveis em leguminosas e cereais, durante a fase de escassez, é um caminho racional e relativamente fácil de ser percorrido.

Sobre o Autor

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

Sobre o Blog

Análises e contextualizações para entender o dia a dia da economia e das políticas econômicas, bem como seus impactos sobre o cotidiano das pessoas, sempre com um olhar independente, social e crítico. Finanças pessoais e outros temas de interesse geral fazem parte do pacote.

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