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Sabia que não é possível “ver" inflação no supermercado? Veja por quê

José Paulo Kupfer

14/01/2020 04h00

Um dos fenômenos econômicos mais intrigantes é o da inflação. Embora afete o dia a dia de todos, inflação não é um conceito intuitivo. Como não é o que parece, os índices de inflação são terreno fértil para desinformação e proliferação de teorias conspiratórias. A ideia, quase sempre equivocada, de que governos manipulam os números da inflação é disseminada.

Apesar disso, inflação é elemento central e politicamente sensível da economia. A sensibilidade fica mais aguçada quando ocorrem choques de oferta, principalmente em alimentos. Ainda que, em grande parte, alimentos possam ser substituídos quando seus preços sobem muito, as pessoas se sentem mais "pobres" e, de fato, os mais pobres, cuja renda é praticamente toda consumida em alimentos, são os mais afetados.

O que ocorreu com os preços das carnes, sobretudo a bovina, nos dois últimos meses de 2019, foi o mesmo que transformou o tomate num vilão generalizado da inflação, entre 2013 e 2016, no encurtado segundo mandato de Dilma Rousseff. E, bem mais lá atrás, com o prosaico chuchu, que azucrinou a vida do então ministro da Fazenda, o grande economista Mario Henrique Simonsen, em fins dos anos 70.

Em todos esses casos, a escassez repentina dos produtos provocou reações populares e alguma tensão política. Foram, porém, apenas choques de oferta clássicos, que aos poucos perderam força como impulsionadores dos índices de inflação. Os preços explodiram, ficaram altos por um tempo, depois recuaram, por redução da demanda ou elevação da oferta. Seus impactos sobre a inflação, no fim das contas, foram somente temporários.

Para começar, é preciso entender que inflação não é preço alto, como muitos pensam que é. Inflação é alta persistente de preços – não preços elevados e muito menos preços altos por tempo limitado. Por isso, não é possível "ver" inflação na feira, no supermercado ou na loja que vende geladeiras ou televisores.

Sem entender isso, não é possível entender como funcionou, por exemplo, o Plano Real. Ele continuará sendo uma "mágica" que derrubou uma inflação acima de 2.000% ao ano para menos de dois dígitos, com exceções pontuais, nos últimos 25 anos.

O Plano Real não foi mágica. Foi aplicação bem feita de conceitos econômicos. No período de preparação do corte da inflação, ao longo do primeiro semestre de 1994, o que os autores do Plano Real fizeram foi justamente jogar os preços para o mais alto possível, corrigindo-os diariamente, nas costas da URV (Unidade Real de Valor).

Um preço pode ser alto e não expressar inflação, como demonstra o Plano Real. Basta imaginar um produto cujo preço subiu de R$ 100 em março para R$ 300 em junho. No período, o preço desse produto subiu 200%. Mas, em julho, o preço se manteve em R$ 300. No mês, o preço, que tinha explodido nos meses anteriores, não se mexeu. Em julho, o preço que explodira nos meses anteriores, estava muito alto, mas a "inflação" ficou em zero porque não houve variação de preço. 

Preços altos (ou baixos) são captados por índices de preços, utilizados para "medir" a inflação. É um recurso cheio de imperfeições, mas é por meio dos índices que o conceito abstrato de inflação ganha vida concreta, atinge o bolso das pessoas e entra numa infinidade de cálculos e decisões pessoais ou coletivas.

Uma primeira consequência desse fato é que inflação não é um número em si, mas representa a variação de um índice entre pelo menos dois períodos de tempo. Não se pode determinar a inflação de um dado período sem que se compare o conjunto de preços dos bens e serviços contidos num dado índice, numa data inicial, com o mesmo conjunto de preços observado em outro momento mais à frente.

Os índices de preços são elaborados a partir de pesquisas de orçamento doméstico – de tempos em tempos, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) faz uma POF (Pesquisa de Orçamento Familiar), assim como outras instituições, caso da Fundação Getúlio Vargas, do Dieese (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos) e de institutos regionais, realizam outras pesquisas de orçamentos familiares.

O objetivo é determinar a lista detalhada dos produtos e serviços, nas devidas quantidades consumidas, que um determinado tipo de cidadão/família consome em determinado período de tempo. A última POF do IBGE, referente aos anos de 2017 e 2018, foi publicada em outubro de 2019 e, segundo especialistas, por mudanças na composição do orçamento familiar, tende a produzir variações (ou seja, inflação) mais baixas.

Como o consumo varia para cada grupo de renda familiar, idade e até mesmo gênero, os índices são montados para um tipo de consumidor padrão, com aquelas dadas características sócio-econômicas. É daí que se tem a abundante sopa de letras dos índices de preços – IPCA, INPC, IGP, ICV, IPC -, calculados, inclusive em recorte regional, por diversas instituições, entidades e institutos de pesquisa. Não há, no Brasil, um índice "oficial" de inflação, mas o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), calculado pelo IBGE, no período de um mês civil, para famílias com renda entre um e 40 salários mínimos, é o que baliza o sistema de metas de inflação e, em consequência, a determinação da taxa básica de juros (taxa Selic).

A rigor, porém, esse índice padrão é uma convenção. Na verdade, a inflação de todos não é a de ninguém. Se alguém consome mais queijos do que um outro e o preço do queijo sobe, a inflação padrão subirá na proporção da quantidade de queijo listado no orçamento padrão, mas o indivíduo apreciador de queijo terá inflação maior do que a do outro que não inclui queijo no orçamento. Só por muita coincidência duas pessoas ou duas famílias terão idêntico padrão de consumo e, portanto, a mesma inflação no orçamento doméstico.

Sobre o Autor

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

Sobre o Blog

Análises e contextualizações para entender o dia a dia da economia e das políticas econômicas, bem como seus impactos sobre o cotidiano das pessoas, sempre com um olhar independente, social e crítico. Finanças pessoais e outros temas de interesse geral fazem parte do pacote.

José Paulo Kupfer