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Acordo EUA-China: mais concorrência americana a produtos do Brasil na China

José Paulo Kupfer

15/01/2020 17h24

A assinatura da chamada primeira fase do acordo comercial entre Estados Unidos e China, nesta quarta-feira (15), encerra dois anos de mútuas ameaças, atritos e imposição de barreiras entre as duas maiores economia do mundo. Mas esse acordo inicial não acaba com as incertezas sobre o futuro das relações comerciais EUA-China e sobre suas consequências para o resto da economia global.

Nas bolsas de valores americanas, a reação dos pregões passa a mesma mensagem de ceticismo em relação à "paz" agora assinada. Os pregões operaram em leve alta, sem qualquer sinal de euforia. Ainda que esse comportamento também se deva ao fato de que boa parte dos termos do acordo já eram conhecidas, as dúvidas sobre os próximos passos persistem.

Para o Brasil, a assinatura da primeira fase do acordo pode ter efeitos mistos. O principal aspecto favorável é a possibilidade de alguma distensão no comércio internacional, duramente afetado pela disputa. A contração do comércio produzi hesitações nos investimentos e rebaixas no ritmo de crescimento da economia mundial. A economia brasileira, que historicamente acompanha a trajetória da expansão econômica do mundo, sentiu os reflexos e agora encontrar novos espaços para avançar.

De outro lado, o acordo EUA-China prevê a importação pelos chineses de US$ 200 bilhões em alimentos — carne bovina e aves fazem parte da lista —, energia, bens industriais e serviços, nos próximos dois anos. Exportador relevante de commodities agrícolas, com forte penetração no mercado chinês, o Brasil pode sofrer concorrência de produtores americanos dos quais a China agora se obriga a comprar.

A "fase 1" do acordo EUA-China permite às duas partes cantarem vitória. Os americanos, por exemplo, mantiveram a maior parte das tarifas sobre importações chinesas para o mercado americano, no montante de US$ 360 bilhões.

Também conseguiram que os chineses se comprometessem a não manipular sua moeda para ganhar competitividade. Também ficou acertado que as empresas americanas não terão de abrir suas tecnologias como condição para operar no mercado chinês

Mas os chineses rejeitaram adotar mudanças mais amplas na forma como sua economia dirigida funciona. Não aceitaram, por exemplo, reduzir subsídios e incentivos a setores industriais, podendo afetar, negativamente, concorrentes americanos, no próprio mercado americano. Também ficaram de fora questões de segurança cibernética, incluindo a rejeição de impedir invasões de hackers em sites de empresas americanas, bem como o de uso de dados obtidos na internet.

As incertezas sobre o futuro das relações EUA-China permanecem porque a guerra comercial entre os dois países é apenas a ponta de um iceberg de controvérsias e disputas políticas e econômicas. O centro dessas disputas está localizado na área tecnológica, em torno do domínio de mercado dos novos e revolucionários usos da Inteligência Artificial, da robótica e das redes de comunicação 5G.

São temas que os negociadores americanos e chineses prometem incluir na "fase 2" do acordo, mas sua conclusão ainda parece distante. O próprio Trump não pretende avançar nessa etapa antes das eleições presidenciais de novembro, no qual concorre à reeleição.

Ainda não é possível delimitar os impactos das novas negociações para o comércio e a economia globais. É certo, porém, que o resto do mundo não ficará imune a seus efeitos.

No Brasil, por exemplo, circulam rumores de que o adiamento do processo de licitação de redes 5G, cuja início de implementação ficaria para 2022, teria sido provocado por pressões do governo Trump. Atrasados em relações aos chineses da Huawei, líder mundial na difusão da tecnologia 5G, os americanos têm se esforçado para vincular mercados parceiros ao tempo necessário para empresas americanas e suas coligadas internacionais eliminem defasagens competitivas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre o Autor

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

Sobre o Blog

Análises e contextualizações para entender o dia a dia da economia e das políticas econômicas, bem como seus impactos sobre o cotidiano das pessoas, sempre com um olhar independente, social e crítico. Finanças pessoais e outros temas de interesse geral fazem parte do pacote.

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