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Coronavírus terá efeito de terremoto ou de crash financeiro? Difícil saber

José Paulo Kupfer

04/03/2020 07h52

O problema econômico provocado pela disseminação do coronavírus está ligado à disseminação pela economia mundial de dois fortes choques simultâneos e inesperados. O primeiro atinge o lado da oferta, com quebra de cadeias de suprimentos para a produção. O outro impacta o lado da demanda, com reduções no consumo causados pelo cancelamento de compras, principalmente no setor de serviços, atingindo mais diretamente segmentos como os de transportes, turismo e comércio.

Há crescente preocupação com os efeitos na economia da propagação global do coronavírus. Nesta segunda-feira (2), a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), que reúne países ricos e outros que se comprometem a seguir melhores práticas na economia de mercado, divulgou um relatório revisando para baixo suas estimativas de crescimento para 2020.

Em tom dramático, sob o título "Coronavírus: a economia global sob risco", a entidade traçou cenários para os impactos econômicos do surto que se espalha pelo mundo. No pior deles, com propagação mais intensa e duradoura não só na região da Ásia e do Pacífico, mas também na Europa e América do Norte, o crescimento da economia global, em 2020, cairia de 2,9%, previstos em novembro de 2019, para 1,5%, metade da projeção anterior à eclosão do coronavírus. No cenário considerado básico, a expansão da atividade recuaria para 2,4%, em 2020.

Mais dramática ainda foi a decisão do Federal Reserve (Fed, banco central americano), nesta terça-feira (3). Em reunião extraordinária e de emergência, fora do calendário normal de seus encontros para definir a taxa de referência do mercado americano, os diretores do Fed, por unanimidade, decidiram cortar 0,5 ponto percentual nos juros básicos, para a faixa de 1% a 1,5% ao ano. Esta foi a primeira reunião extraordinária do Fed desde o auge da crise financeira de 2008.

Em meio a sinais de que a crise se alastra, cresce a pressão de países, Brasil entre eles, para que OMS (Organização Mundial de Saúde) classifique o surto de coronavírus como "pandemia". O objetivo da pressão é dar aos governos argumentos e base institucional para uma ação mais radical e disseminada de contenção da propagação do vírus, basicamente com a imposição de barreiras mais rígidas à circulação de pessoas. Essa ação, porém, também afetaria de modo mais radical e disseminado a atividade econômica. Insinua-se que a OMS reluta em decretar o estado de "pandemia" para o surto de coronavírus justamente para tentar evitar disseminação de prejuízos econômicos.

Seriam pelo menos duas as reações adversas na economia. Uma delas, concreta, prejudicaria os negócios na medida em que a restrição de circulação de pessoas promoveria, como consequência direta, restrição à circulação de mercadorias e da prestação de serviços. Uma outra, mais psicológica, poderia dar sustentação a um estado de pânico, cuja tendência seria acabar causando ainda mais restrições ao funcionamento regular da economia.

Incertezas tanto em relação à extensão geográfica quanto à quantidade de pessoas afetadas, e, sobretudo, quanto ao tempo de duração da epidemia impedem antecipar o tamanho do desastre econômico causado pelo coronavírus. Como lembrou texto publicado no site do "New York Times", nesta terça-feira (3), dependendo da extensão e duração, as consequências econômicas do surto de coronavírus podem ser comparadas ao que acontece depois de um terremoto ou do que acontece na esteira de um crash financeiro, como o de 2008.

Quando ocorre um terremoto, a região afetada, sob escombros, entra em colapso econômico, a partir da restrição da circulação de pessoas e da concentração de esforços nas operações de resgate. Mas, a recuperação vem rápido e, em geral, os trabalhos de reconstrução promovem impulsos econômicos extraordinários. Não só a atividade se recupera, mas tende a superar o pico observado antes do terremoto.

Nas crises financeiras, diferentemente, tanto a sua eclosão quanto a retomada são lentas. O crash decorre da acumulação nem sempre visível de problemas, muitas vezes em consequência de endividamento excessivo, cuja dissipação é muito mais demorada. Mais de 10 anos depois da quebra, nos Estados Unidos, do banco de investimentos Lehman Brothers, o evento que determinou a data oficial do início da crise de 2008, a economia mundial atravessa uma recuperação ainda repleta de percalços.

Sobre o Autor

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

Sobre o Blog

Análises e contextualizações para entender o dia a dia da economia e das políticas econômicas, bem como seus impactos sobre o cotidiano das pessoas, sempre com um olhar independente, social e crítico. Finanças pessoais e outros temas de interesse geral fazem parte do pacote.

José Paulo Kupfer