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Governos enfrentam sinuca de bico na economia com impactos do coronavírus

José Paulo Kupfer

07/03/2020 04h00

O surto de Covid-19, a doença respiratória causada por um novo coronavírus continua em acelerada propagação pelo mundo. Só nesta semana, até esta sexta-feira (6), o número de países que registram casos confirmados saltou de 51 para 95. No Brasil, foram 11 novas ocorrências, com as quais o número de infectados avançou de dois para 13.

Com o contágio ainda aparentemente longe de arrefecer, a estabilização da curva de doentes na China, o epicentro da epidemia, está sendo compensada por uma maior incidência de casos agora na Europa e Estados Unidos. É neste quadro de inquietação e temores de amplitude global que a economia mundo afora vem sendo duramente vitimada.

Ainda não se sabe quando a propagação do Covid-19 será contida. Logo, ainda não é possível saber em que grau vai se dar o choque combinado de oferta e de demanda na economia causado pela doença. Nem, em consequência, o tamanho do seu impacto nas atividades econômicas.

As primeiras grandes vítimas econômicas se localizam nos mercados de ativos financeiros. Ações de empresas, em bolsas de valores, e moedas enfrentam um momento de grandes turbulências. Bolsas de todos os lugares sofrem perdas acentuadas e sucessivas. As moedas de países emergentes registram perdas substanciais e já duradouras ante o dólar americano, com o real brasileiro liderando a lista de perdedores.

Mas também a economia real está enfrentando perdas e dificuldades. O choque de oferta, provocado pela paralisação da produção e da circulação de peças e partes, principalmente na China, segunda maior economia do mundo, está provocando quebras em uma grande gama de cadeias de suprimento. Os setores de transporte e turismo, com a retração, compulsória ou voluntária, de viajantes, está sendo intensamente afetado.

O grande problema é que as ferramentas e o arsenal de medidas disponíveis para evitar tanto a derrubada dos mercados financeiros quanto paralisações na produção e nas vendas não parecem capazes de pelo menos aliviar os danos. Até aqui, os governos se encontram numa sinuca de bico diante dos estragos que a restrição da circulação de pessoas, para tentar conter o contágio do vírus, estão causando à atividade econômica, em dimensão global.

São dois os tipos de medidas econômicas a que os governos têm recorrido. A primeira, a cargo dos bancos centrais, é o corte de juros. A outra é a liberação de recursos públicos, principalmente para reforçar orçamentos na área de saúde.

Em relação a essas medidas, são também pelo menos duas as más notícias. Uma delas é que o espaço para executá-las se encontra muito limitado. Juros básicos já estão em níveis mínimos, quando não em terreno negativo. E o aumento de gastos públicos, diante das restrições impostas pelos desequilíbrios fiscais e a rigidez do endividamento dos governos, dão pouca margem para sua efetivação.

As dificuldades não terminam aí. Ainda que fosse possível recorrer ao remédio dos juros e dos gastos públicos sem maiores restrições, o choque nas cadeias produtivas causado pela propagação do vírus não parece reagir a esses estímulos. Não há, de fato, medida capaz de mover a economia em meio a um terremoto. Enquanto a terra está tremendo e as construções desabando, o máximo que se pode fazer é tentar conter os prejuízos.

Em decisão extraordinária, na semana passada, a primeira desde o crash de 2008, o Federal Reserve (Fed, banco central americano) cortou os juros de referência da economia americana. Mas os mercados acionários reagiram mal, com novas e sucessivas quedas. A mensagem captada pelos investidores foi a de que a resposta fora do padrão da autoridade monetária indicava preocupações maiores do que as imaginadas com os efeitos na economia do surto de coronavírus.

Na esteira do corte dos juros americanos, o Banco Central brasileiro divulgou nota, também fora de padrão e de calendário, acenando com novo corte de juros básicos, na reunião de março, depois de comunicar, no encerramento do encontro de fevereiro, que daria uma pausa no ciclo de redução dos juros básicos. O resultado foi o aumento da pressão nas cotações do dólar e a elevação da taxa cambial, mesmo com sucessivos leilões de venda de dólares pelo BC.

Com mais um recuo forte, acima de 4%, no pregão desta sexta-feira, o Ibovespa, principal índice da B3, fechou a semana abaixo de 100 mil pontos. Desde o pico do início do ano, o índice acumula perdas de quase 20%. Em dólares, o Ibovespa voltou aos níveis de dezembro de 2018.

Sobre o Autor

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

Sobre o Blog

Análises e contextualizações para entender o dia a dia da economia e das políticas econômicas, bem como seus impactos sobre o cotidiano das pessoas, sempre com um olhar independente, social e crítico. Finanças pessoais e outros temas de interesse geral fazem parte do pacote.

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