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Tentativa de Trump de isolar EUA empurra mercados mais para o precipício

José Paulo Kupfer

12/03/2020 14h21

A perspectiva de um quase colapso praticamente geral na economia global está jogando os preços dos ativos financeiros pela janela, sem rede de proteção. Bolsas de valores no mundo todo, exceto na Ásia, estão operando com perdas de 10% ou mais. No Brasil, depois de um circuit breaker de 30 minutos, foi preciso impor um outro, de uma hora. No início da tarde desta quinta-feira (12), o Ibovespa recuava mais de 15%.

É a primeira vez que a Bolsa brasileira é obrigada a impor o mecanismo de suspensão do pregão três vezes numa única semana. Desde que foi adotado em 1997, o mecanismo foi acionado 21 vezes. Está é a quarta vez que ocorre a suspensão por uma hora. 

Se as perdas avançarem, será o caso, inédito, de decretar feriado por um tempo mais longo. Só no primeiro terço de março, o Ibovespa recuou 30,9%. Em 2020, as perdas somam quase 38%.

Nos demais mercados, a situação não era muito diferente. A cotação do dólar abriu a mais de R$ 5, maior taxa nominal em tempos de real e, depois de intervenções do Banco Central, esfriou um pouco, em torno de R$ 4,80. Também as taxas de juros futuros estavam em alta, com os contratos mais longos indicando que as expectativas de retomada da economia recuavam.

Tudo indica que o presidente americano Donald Trump apertou o botão detonador dessa nova etapa de descida das cotações ao precipício. Trump mencionou US$ 200 bilhões para suportar os estragos econômicos do Covid-19, mas não apresentou medidas concretas, a não ser a implantação de um surpreendente "muro" vedando o fluxo de pessoas e cargas da Europa para os Estados Unidos, por 30 dias.

Mercados financeiros são movidos por fatos e expectativas. Os fatos mostram que a economia global caminha para uma nova recessão. As expectativas consideram que essa nova recessão pode ser mais profunda do que a princípio parecia que seria o "stop" nas cadeias de suprimento e nas vendas.

São as expectativas que estão sustentando a irracionalidade das decisões de venda de ativos, potencializadas pelo efeito manada. E levando à busca desenfreada de liquidez, com destino aos portos considerados mais seguros do dólar (ou concorrentes de prestígio, como o euro e o iene japonês) e dos títulos do Tesouro americano.

Ninguém sabe quando a pandemia de covid-19 vai atingir o pico e começar a refluir. Ninguém também sabe quando os mercados financeiros vão se estabilizar. Por enquanto, as oscilações violentas, para cima e para baixo, recomendam distância aos investidores. Melhor evitar o contágio dos mercados contaminados.

Sobre o Autor

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

Sobre o Blog

Análises e contextualizações para entender o dia a dia da economia e das políticas econômicas, bem como seus impactos sobre o cotidiano das pessoas, sempre com um olhar independente, social e crítico. Finanças pessoais e outros temas de interesse geral fazem parte do pacote.

José Paulo Kupfer