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Sem poder fazer muito para puxar economia, BC leva juros reais a quase zero

José Paulo Kupfer

18/03/2020 19h01

O desafio do Copom (Comitê de Política Monetária), na decisão desta quarta-feira (18), não era mexer ou não mexer na taxa básica de juros, que já estava no seu nível histórico mais baixo, em 4,25% nominais ao ano. Era definir quanto deveria ser o tamanho do corte.

Ao escolher, por decisão unânime, reduzir a taxa em 0,5 ponto percentual, trazendo a taxa Selic para 3,75%, o Copom optou pela coluna do meio. Se a queda fosse de apenas 0,25 ponto, seria muito barulho por nada. Se fosse de um ponto, o sinal transmitido poderia ser o de que só faltava acionar o botão de salve-se quem puder. Com a decisão, a taxa básica real de juros está agora perto de zero, em 0,25%.

Ficar no meio do caminho tem a vantagem de não produzir marolas em mar encapelado. Afinal, a esta altura da gigantesca crise econômica em curso, não é muito o que a política monetária (política de juros) tem a oferecer para estimular a atividade econômica. Tanto isso é verdade que os termos do comunicado divulgado no encerramento da reunião dão a entender que novos cortes de juros estão fora do horizonte dos diretores do Banco Central.

Juros mais baixos, nas circunstâncias atuais, têm duas serventias mais relevantes. Primeiro, ajudam a reduzir encargos de dívidas quando muitos, por paralisação de suas fontes de renda, enfrentam dificuldades para saldar compromissos financeiros. Segundo, e mais importante, colabora para a manutenção da estabilidade financeira possível.

Normalmente, a política de juros é usada para calibrar os índices de inflação, muitas vezes de olho nos movimentos da atividade econômica. Quando a inflação está baixa, em razão de encolhimento da demanda, juros menores abrem canais de crédito e estes tendem a puxar a economia para cima, pela via do consumo. No sentido inverso, subir juros, com inflação em alta e demanda idem, também é padrão.

Em regimes de câmbio flutuante, como é o regime cambial brasileiro, taxa de câmbio e juros são vasos comunicantes, operando em direções contrárias. Em ambientes econômicos normais, quando os juros básicos sobem, o real se valoriza ante o dólar. No caminho inverso, juros básicos em queda costumam pressionar a cotação do dólar para cima.

Uma das causas desses movimentos é a diferença entre os juros internos e externos. Taxas internas mais altas atraem moeda estrangeira e o câmbio se valoriza. Já quando os juros domésticos se aproximam mais dos externos, a atração para detentores de moeda estrangeira do mercado financeiro doméstico se reduz.

Manter alguma diferença entre taxa básica interna e externa é uma das razões que deve ter levado o Copom a cortar a taxa Selic agora. Como o Federal Reserve (Fed, banco central americano) acabou de jogar os juros de referência nos Estados Unidos, em termos nominais, para zero, era recomendável reduzìr também os juros por aqui.

Normalmente, essa decisão poderia trazer algum pressão sobre a taxa de câmbio, facilitando desvalorizações do real ante o dólar. Mas, na situação de calamidade global dos dias de hoje, isso não fará muita diferença. A preferência pela liquidez e o chamado "voo para a qualidade" são totais, com os recursos correndo para o dólar e os títulos do Tesouro americano – o que explica, em parte, as fortes desvalorizações do real no momento.

Também as pressões inflacionárias que um dólar mais alto poderia normalmente exercer, no atual cenário, perdem um pouco o sentido. Com a economia em quase colapso, perspectivas de desemprego em massa, não há consumo possível para empurrar a inflação ladeira acima.

Tanto que as projeções para a variação do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) são de sucessivas baixas. Já há, inclusive, previsões de que a taxa de inflação possa terminar 2020 abaixo do piso do intervalo da meta de inflação do ano (centro da meta em 4%, com 2,5% de piso e 5,5% de teto). Reflexo direto das projeções de crescimento muito e mesmo de contração para a economia brasileira em 2020.

Sobre o Autor

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

Sobre o Blog

Análises e contextualizações para entender o dia a dia da economia e das políticas econômicas, bem como seus impactos sobre o cotidiano das pessoas, sempre com um olhar independente, social e crítico. Finanças pessoais e outros temas de interesse geral fazem parte do pacote.

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