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“Plano" de Bolsonaro corre risco de não salvar vidas nem a economia

José Paulo Kupfer

13/04/2020 18h15

Depois de classificar o que logo se transformaria na pandemia de Covid-19 como uma "gripezinha", o presidente Jair Bolsonaro "descobriu" que a pandemia se transformou "no maior desafio de nossa geração". Mas parece disposto a enfrentá-lo da pior maneira possível.

O resultado do "plano Bolsonaro" para enfrentar a pandemia e manter a economia de pé começará a mostrar sua face mais dramática a partir de agora. Com a curva de infectados avançando a passos largos a cada minuto, aproxima-se o momento em que o sistema de saúde – não só a rede pública, mas também os hospitais privados – entrará em colapso.

Com a impossibilidade de acolher todos os que necessitam de cuidados hospitalares, as mortes se multiplicarão e os congestionamentos também tendem atingir os sistemas funerários. Os exemplos da Itália, Espanha, Equador e mesmo Estados Unidos, onde os cemitérios em Nova YorK já abrem valas comuns para sepultamentos em massa, estão aí para ninguém, em sã consciência, duvidar.

Desde o início da crise, fazendo eco a posições do presidente americano Donald Trump já devidamente abandonadas, Bolsonaro tem encarado a questão central de, ao mesmo tempo, salvar vidas e a economia, de uma forma que, até aqui, tem tudo para não conseguir uma coisa nem a outra.

Diante do avanço acelerado de mortes e infectados nos Estados Unidos, Trump passou a defender o isolamento social da população. Ao mesmo tempo em que, com apoio de Trump, o Fed (Federal Reserve, banco central americano) despejava inéditos e oceânicos US$ 2 trilhões, na defesa de pessoas, empresas e empregos.

Bolsonaro, porém, resiste. Não só desqualifica os esforços, até mesmo de ministros do seu governo, à frente o responsável pela pasta da Saúde, para manter as pessoas em casa, como tem saído às ruas, promovendo aglomerações e mantendo contatos descuidados das medidas sanitárias com correligionários. Com isso, estimula o relaxamento das medidas de contenção do contágio da Covid-19.

É que o presidente só pensa "naquilo", ou seja, na reeleição em 2022. Diferentemente do seu principal slogan político, acima de tudo, para Bolsonaro, não está o Brasil, mas, como ele próprio tem repetido inúmeras vezes, está o "meu governo". Recentemente, o presidente declarou: "Se acabar a economia, acaba qualquer governo, acaba o meu governo". Para Bolsonaro, segundo o próprio presidente, o risco maior é o de um desabamento da atividade econômica, carregando com ela os empregos e o "meu governo".

A última dessas insistentes manifestações de Bolsonaro se deu neste domingo (12), num tuíte em reação à manchete da edição dominical impressa da Folha. Mencionando estudo de pesquisadores da FGV (Fundação Getúlio Vargas), o jornal mostra que, se a ações oficiais de suporte à população e às empresas não forem robustas e rápidas, o desemprego pode dobrar em 2020 e a renda dos trabalhadores pode ter um corte recorde de até 15%.

"Este jornal apoiou ações daqueles que destruíram empregos e agora quer culpar o Presidente da República das consequências", tuitou Bolsonaro. Quebrar o isolamento e, com isso, fazer a economia se mover, é o "plano" presidencial para evitar os riscos apontados no estudo mencionado pela Folha.

Pode-se escolher entre ingenuidade e ignorância em relação ao funcionamento da economia a ideia de que relaxando o isolamento a atividade econômica reagirá.  Na presente e excepcional situação, não há hipótese de que essa reação se dê por conta própria dos mercados.

Manter um mínimo de renda e demanda para retirar a produção de mercadorias e a prestação de serviços da paralisia causada pela restrição de circulação de pessoas, já não há dúvidas no resto do mundo, exigirá ações diretas e focadas dos governos.

Da mesma forma que os demais países, o governo brasileiro está destinando  monumentais volumes de recursos para evitar deixar trabalhadores sem renda e impedir a quebra de empresas. Os cálculos mais recentes contabilizam um considerável esforço total de R$ 568 bilhões, equivalentes a 7,8% do PIB, embora 40% desse montante venha de antecipação de pagamentos e adiamento de obrigações, ao mesmo tempo em que as indispensáveis torneiras do crédito ainda continuem fechadas.

Nem por isso, contudo, arrefeceram as perspectivas de uma derrubada recorde dos índices de atividade econômica em 2020. Ainda que a dispersão seja muito grande, as estimativas de queda do PIB neste ano avançam para um tombo histórico de pelo menos 6% – mas o poço pode ser ainda mais fundo. Só a ação governamental, oferecendo suporte quase ilimitado a empresas para que se mantenha paradas, com a contrapartida de que mantenha postos de trabalho, poderá evitar uma onda de desemprego em massa.

Enquanto, felizmente, o Congresso e uma parte de seu governo trata de oferecer as saídas possíveis mais eficientes, Bolsonaro ainda se agarra ao falso dilema entre preservar vidas ou salvar a economia. Isso quando já se sabe que, onde se deixou o contágio da Covid-19 correr solto, mais a economia sofreu e mais mortes tiveram de ser contabilizadas.

Isolado do resto do mundo, inclusive de seu modelo Donald Trump, que recuou dos ataques a medidas de contenção do Covid-19 depois que a quantidade de infectados e mortos assumiu contornos trágicos nos Estados Unidos, Bolsonaro está gastando o pouco tempo que lhe resta diante do avanço da doença no Brasil para barrar, além do inevitável, perdas de vidas e afundamentos da economia.

Sobre o Autor

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

Sobre o Blog

Análises e contextualizações para entender o dia a dia da economia e das políticas econômicas, bem como seus impactos sobre o cotidiano das pessoas, sempre com um olhar independente, social e crítico. Finanças pessoais e outros temas de interesse geral fazem parte do pacote.

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